OPINIÃO

Bom jornalismo aderiu à greve – por Leandro Silva

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(Imagem: FreePik)

Ombudsman da Folha de São Paulo, Paula Cesarino Costa, na coluna de domingo (30), foi certeira: o bom jornalismo não compareceu ao trabalho na sexta passada (28), dia da greve geral. O motivo do cruzar de braços midiático, entretanto, nada teve a ver com as causas do ato nacional convocado por centrais sindicais. Pelo contrário. Ocorreu pela distorção da realidade durante a cobertura do fato e do balanço dos principais jornais do País no dia seguinte, frustrando qualquer relação com jornalismo de qualidade.

Veículos da grande mídia – impresso, online rádio e TV – começaram o dia evitando o termo greve geral. O foco da paralisação foi em transporte público, o que sustentou abordagens acerca de transtornos para a população. Repórteres entrevistaram diversas pessoas que não conseguiram chegar ao trabalho, que perderam compromissos etc.; falaram dos prejuízos para o comércio, cujos lojistas apareceram como fontes; não ouviram, porém, líderes do movimento grevista, sindicalistas ou trabalhadores. Profissionais que se dizem fiéis aos fatos não trataram das razões da greve; ignoraram paralisações em escolas públicas, bancos e universidades; esqueceram-se do básico no jornalismo: o outro (ou tantos) lado.

Além da esperada greve, o dia 28 foi marcado por manifestações em diversas cidades. É bem verdade que não houve milhões de pessoas nas ruas. Foram milhares. Mas se considerarmos ônibus e metrôs parados, como em São Paulo, a adesão foi forte. O Largo da Batata, local de concentração do ato principal, ficou tomado por trabalhadores e estudantes pacíficos por volta de 18h daquele dia. Apesar disso, a grande imprensa não enviou helicóptero para acompanhar. Como se não bastasse, reduziu o movimento a vandalismo, priorizando ações isoladas de mascarados. O mesmo aconteceu no Rio.

O balanço da greve geral, nos telejornais do final da noite e nas capas do dia seguinte, limitou-se a caos e quebradeira. A grande mídia não se preocupou em dar voz aos trabalhadores, que, naquela ocasião, transcendiam filiação sindical; não se deu ao trabalho de esclarecer pontos controversos das reformas do governo ilegítimo de Michel Temer; não contextualizou os fatos, isto é, não fez o dever de casa – considerando aqui, óbvio, a essência do jornalismo.

Ainda tivemos prefeito da principal cidade do Brasil, João Doria, rasgando a Constituição Federal, referindo-se a grevistas como vagabundos, sem que repórteres ou articulistas interviessem em nome da Carta Magna e de direitos outrora garantidos.

Um vídeo do subprefeito de Pinheiros, Paulo Mathias, aliás, virou notícia pelo comentário estapafúrdio de que funcionários dormiriam no local de trabalho para não faltarem por causa da greve. Nenhum jornal abordou as condições em que tais funcionários repousariam, se houve constrangimento, transtornos causados por uma noite longe da família.

Veículos tradicionais preocuparam-se com a impossibilidade de pessoas chegarem ao trabalho e não viram nada de mais em estratégia para não sair dele. E em dia de greve. Jornalistas escandalizaram-se com ônibus queimados e vidraças quebradas e não se emocionaram com direitos trabalhistas, direitos humanos, à beira do abismo.

Dia 28 o bom jornalismo não compareceu para trabalhar, reiterando o texto irretocável de Paula Cesarino (leia aqui).

Leandro Silva. Jornalista formado pela Universidade Nove de Julho e pós-graduando em Economia Brasileira pela Fipe. É redator/repórter de educação do Portal CPP – Centro do Professorado Paulista, associação de professores do estado de São Paulo. Foi repórter da revista Reciclagem Moderna, veículo especializado em negócios e meio ambiente. Curte fotografia, política e direitos humanos. 

SOBRE O AUTOR

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