OPINIÃO

Campeão das paradinhas para (não) trabalhar

trabalhar - feriados - heródoto barbeiro

Finalmente o domingo foi considerado feriado. Uma prática que vinha da Idade Média, quando servos e senhores paravam de trabalhar para se dedicar â cerimonias religiosas. O advento das religiões protestantes e da revolução industrial acabaram com a folga. Na primeira etapa do industrialismo inglês se trabalhava todos os dias e a carga semanal beirava 80 horas. Nem jornalista trabalha tanto. Sem proteção do Estado, os trabalhadores ou se submetiam ou morreriam de fome nas apinhadas cidades industriais inglesas.

Somente com o movimento cartista, por volta de 1840, se reconheceu que o domingo era um feriado e todos teriam direito ao descanso. Foi uma luta dura com passeatas, repressão feita pelo exército, mortes, incêndios, mas finalmente a burguesia industrial se dobrou e aceitou a paralisação semanal. É verdade que ao mesmo tempo chegavam mais máquinas e a produtividade aumentou aceleradamente. Ao invés de perderem dinheiro com um dia a menos de trabalho, os industriais ganhavam mais.

Com o advento do nacionalismo chauvinista as nações escolheram outros dias para feriados. Obviamente o mais importante era o da libertação, independência nacional, proclamação de alguma coisa associada ao Estado. Os Estados totalitários de todos os matizes criaram feriados onde se podia festejar a ideologia escolhida. Por tradição se mantinham algumas festas religiosas, mas nos Estados comunistas elas foram expurgadas e substituídas por outras que louvavam o proletariado e seus patronos.

Grudada no Estado, como um carrapato, estava a burocracia, que, geralmente se confundia com partido. Criaram-se dias especiais para homenageá-los. Dada a sua importância para manter o regime, este criou semi feriados, ou pontos facultativos, só destinados aos burocratas. O volume era tal que os burocratas de um poder conquistavam mais folgas que outros. O poder judiciário foi o campeão das paradinhas. Com o tempo tais pontos facultativos ficaram à mercê de prefeitos, governadores e presidentes que com isso reuniam apoio e votos para a eterna reeleição.

Terça feira de carnaval não é feriado no Brasil. E no entanto o país para. Uma multidão se aboleta nas praias, montanhas, estradas, shoppings em busca do merecido repouso. Vale até uma visitinha na casa da sogra. Ele é um feriado consuetudinário, como aprendi no curso de direito. Ele não existe, mas está em todo o canto. Milhares se juntam em blocos carnavalescos nas principais cidade e não arredam pé. Ninguém trabalha, ninguém é descontado. Bancos fecham. Industrias param. Comércio a meio pano para faturar no carnaval.

Não é necessário publicar nem uma linha no simpático diário oficial para estabelecer normas. Todos já nascem sabendo que terça feira de carnaval é um feriado e ponto final. Até agora não se sabe de projetos no Congresso que regulamentem essa pratica horripilante de se parar de trabalhar sem apoio legal. E se um desalmado burguês resolver convocar o proletariado para trabalhar em uma data inigualável como essa? Certamente nem ele mesmo vai aparecer no escritório ou na fábrica. As ruas tomadas de foliões informais não permitem a passagem de quem quer que seja.

SOBRE O AUTOR

Heródoto Barbeiro

Apresentador e editor-chefe do ‘Jornal da Record News’. Já foi professor de história, carreira que seguiu por quase 20 anos. Na imprensa, passou por CBN, Rádio Globo, Jovem Pan, TV Cultura, TV Gazeta e Diário de S. Paulo. Edita o Blog do Barbeiro – Barba, Bigode e Cabelo, hospedado pelo R7.

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