JORNALISMO

Em carta, jornalistas defendem diretora da IstoÉ de “fofocas” e “insinuações de ordem moral”

A jornalista Débora Bergamasco, diretora da IstoÉ em Brasília (Imagem: Arquivo Pessoal)

Oito de março de 2016. Dia Internacional da Mulher. Dia em que 24 mulheres que atuam na Editora Três se uniram na produção e divulgação de carta de repúdio às “insinuações de ordem moral” direcionadas à diretora da IstoÉ em Brasília, Débora Bergamasco. Experiente na cobertura dos bastidores do poder, com passagens por Estadão e Folha de S. Paulo, a jornalista esteve em Curitiba, “capital” da Operação Lava Jato, de onde produziu a reportagem “A delação de Delcídio”, que ganhou a capa da atual edição da publicação semanal.

Na matéria assinada exclusivamente por Débora, foram divulgados trechos do que seria, de acordo com a reportagem, parte da delação premiada de Delcídio do Amaral, senador pelo Mato Grosso do Sul que está suspenso do PT, mas que era líder do governo no Senado até o momento em que foi detido durante a deflagração de uma das fases da Lava Jato. O conteúdo publicado pela IstoÉ repercutiu em portais de notícias, emissoras de rádio e TV e até mesmo em outros veículos impressos. Com a publicação da matéria, porém, a jornalista se tornou alvo de “ataques constantes e difamatórios”, conforme afirmam as colegas que saíram em sua defesa.

“Débora Bergamasco tem visto, nos últimos dias, seu esforço jornalístico colocado em xeque em meio a insinuações de ordem moral, sem nenhum fato, testemunho ou dado concreto que fragilize seu trabalho jornalístico. Quantas vezes nós, mulheres, temos de suportar comentários que aproximam nosso desempenho profissional à nossa vida afetiva ou sexual? Por que o trabalho de uma mulher, e da colega Bergamasco em especial, não pode ser julgado pelo próprio mérito, pela reportagem que escreveu? Fofocas, insinuações, difamações e brincadeiras ofensivas ocorrem a todo momento. E não podemos ser coniventes”, afirmam as 24 mulheres da Editora Três.

A carta conjunta enviada à redação do Portal Comunique-se garante, ainda, que a diretora da sucursal da IstoÉ em Brasília vem sendo vítima de “invenções a respeito de sua vida pessoal”. O texto não é direcionado a nenhum profissional e nem menciona determinado veículo – apenas divulga link para artigo de Eugênio Bucci no Estadão para endossar o posicionamento do material. A divulgação do ato em prol de Débora ocorre, porém, cinco dias depois de o Diário do Centro do Mundo, site dirigido por Paulo Nogueira, colocar a jornalista como personagem central do que seria o “mais novo escândalo sexual de Brasília”.

O texto acusatório usa termos machistas contra Débora, a definindo como alguém que “abandonou o marido” para “viver com José Eduardo Cardozo”, ex-ministro da Justiça e atual Advogado-Geral da União. Sem entrar no mérito do conteúdo da reportagem da revista da Editora Três, o Diário do Centro do Mundo coloca o personagem “Anônimo” como autor do artigo que gira em volta da suposta vida pessoal da diretora da IstoÉ. No DCM, o repórter “Anônimo” tem direito a uma descrição: “jornalista que trafega nos corredores do poder em Brasília”. Diretor do site, Paulo Nogueira chegou a assinar textos na revista Época como Eduardo Plarr (analista político) e na VIP como Fabio Hernandez (colunista de assuntos sentimentais).

Confira, abaixo, a íntegra da carta enviada à redação do Portal Comunique-se:

Carta de repúdio

Nós, jornalistas da revista IstoÉ, repudiamos as ofensas contra a diretora da sucursal de Brasília, Débora Bergamasco, autora da matéria “A Delação de Delcídio”, publicada na edição desta semana. A jornalista vem sofrendo ataques constantes e difamatórios a respeito da credibilidade de seu trabalho, apoiados em invenções a respeito de sua vida pessoal.

Há um machismo travestido de discussão ética nesses atentados que questionam o furo de reportagem da nossa colega (http://alias.estadao.com.br/noticias/geral,vazamento-e-a mae,10000019737).

Débora Bergamasco tem visto, nos últimos dias, seu esforço jornalístico colocado em xeque em meio a insinuações de ordem moral, sem nenhum fato, testemunho ou dado concreto que fragilize seu trabalho jornalístico. Quantas vezes nós, mulheres, temos de suportar comentários que aproximam nosso desempenho profissional à nossa vida afetiva ou sexual? Por que o trabalho de uma mulher, e da colega Bergamasco em especial, não pode ser julgado pelo próprio mérito, pela reportagem que escreveu?  Fofocas, insinuações, difamações e brincadeiras ofensivas ocorrem a todo momento. E não podemos ser coniventes.

Deixamos claro, aqui, nosso apoio a Débora Bergamasco e repudiamos qualquer tipo de insinuação machista, grosseira e vergonhosa em relação a ela e ao seu trabalho.

Ana Weiss, Ana Carolina Gandara, Ana Carolina Nunes, Beatriz Marques, Camila Brandalise, Carol Argamim Gouvêa, Célia Almeida, Christiane Pinho, Cinthia Behr, Cintia Oliveira, Elaine Ortiz, Fabíola Perez, Gabriela Araújo, Geovana Pagel, Gisele Vitória, Iara Spina, Kareen Sayuri, Letícia Liñeira, Ludmilla Amaral, Mariana Queiroz Barboza, Marili Hirota, Natália Flach, Paula Bezerra, Renata Valério

São Paulo, 8 de março de 2016.

Notícias Corporativas

VOTAÇÃO PREMIO COMUNIQUE-SE 2017