Sex, 03 de Fevereiro de 2012 19:23
Negar a ditadura em Cuba significa apoiar o controle aos meios de comunicação
Editorial
“O único controle da mídia que eu proponho é o controle remoto na mão do telespectador que muda de canal quando se interessar", disse a então candidata à presidência da República pelo PT, Dilma Rousseff, em outubro de 2010. Um ano e três meses depois, parece que sua opinião é outra. Pois negar que Cuba está sob regime ditatorial significa defender, por tabela, a censura à imprensa existente no país comunista.
No início desta semana, Dilma viajou para Cuba. Questionada sobre a situação da ilha em relação à violação dos direitos humanos, a presidente confirmou ser realmente a sucessora de Lula, em todos os sentidos. Em vez de defender os direitos básicos da democracia, o que inclui a irrestrita liberdade dos setores de comunicação e o respeito aos direitos humanos, preferiu manter o bom relacionamento com o regime cubano. Negou-se a discutir, por exemplo, as consequências àqueles que se opõem a um governo nefasto, como o que é comando pelos irmãos Castro.
Dilma calou-se ante a situação dos jornalistas cubanos, que, quando críticos, não têm espaço na imprensa local, aparelhada pelo governo. O medo de ser preso por expor uma opinião divergente da oficial é intenso, conforme mostrou reportagem produzida por Giuliana Morrone e exibida em dezembro de 2011 pelo ‘Jornal Nacional’, da TV Globo. A presidente desperdiçou a oportunidade de desfazer a impressão de que o discurso de 2010 não passava apenas de bravata em período eleitoral, uma forma de despistar a proposta de controle da mídia – batizada de “regulação” pelo ex-ministro-chefe da Comunicação Social, Franklin Martins.
Antes da viagem a Cuba, Dilma protagonizou o que poderia ser um grande passo na linha de frente da anti-ditatura: concedeu visto à jornalista e blogueira Yoani Sánchez, perseguida pelo regime atual dos irmãos Castro. Porém, em solo cubano, a brasileira “baixou a bola” ao dizer que a dissidente não deve contar mais com seu apoio. “Agora os demais passos não são da competência do governo brasileiro”, justificou. Nesta sexta-feira, 3, Yoani teve, mais uma vez, negado o seu pedido para deixar o país.
Convidada para o lançamento de um documentário sobre Cuba, em evento que será realizado este mês na Bahia, Yoani, que também é colunista do jornal O Estado de São Paulo, divulgou o seu descontentamento com Dilma. Em entrevista à Estadão-ESPN, disse que estava abalada com a atitude da sucessora de Lula. “Foi uma pena, uma oportunidade perdida", definiu. Tenha certeza, Yoani: você não foi a única pessoa a ficar decepcionada com a presidente da República do Brasil.
Dilma decepcionou Yoani e a todos que torcem pela plena democracia cubana.
(Imagem: Roberto Stuckert Filho/Presidência da República)
Última atualização em 03 Fevereiro 2012