OPINIÃO

A minha, a tua renúncia – por Heródoto Barbeiro

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(Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

O presidente proclamou que que não renunciaria. Fez um pronunciamento e foi para casa. Leia o artigo “A minha, a tua renúncia”

O presidente proclamou que que não renunciaria. Fez um pronunciamento e foi para casa. O vice-presidente ficou alerta para ter que assumir o governo a qualquer momento. Nada. O homem estava decidido como um verdadeiro militar. Foi então que a marinha mergulhou na crise política que abalava a jovem república. Os navios de guerra foram alinhados na baia da Guanabara e abriram fogo contra a casa do marechal Deodoro. Um dos canhonaços atingiu a igreja da Candelária. Blasfêmia dizia o povo. O velho marechal não resistiu e pegou o boné. Entregou o poder para o vice, o também militar Floriano Peixoto.

O Congresso esperava que ele cumprisse o que dizia a constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, ou seja, se o presidente fosse apeado do cargo antes de completar metade do mandato de 4 anos, o vice teria que marcar eleições imediatamente para completar o período. Era o que se esperava. Contudo Floriano, apoiado por parte do exército, avisou que ficaria até o final do mandato. Como a chapa era a primeira da república o dispositivo constitucional não se aplicava a ela dizia o marechal de Ferro. E a crise se arrastou por mais três anos com muitas mortes. O governo Deodoro só durou oito meses.

O governo dele durou só sete meses. Não foi necessário força-lo a renunciar. Ele renunciou de livre e espontânea vontade surpreendendo o Brasil. Largar o posto mais alto da república só pode ser um gesto tresloucado ou de grande idealismo. Jânio Quadros . O que queria ele ? Abandonar um pais sob um terremoto econômico provocado pelos gastos com a nova capital, ou voltar nos braços do povo como um verdadeiro líder do terceiro mundo? Era assim que se chamavam alguns países que nem apoiavam os Estados Unidos, nem a União Soviética.

Jânio tinha dado mostras que queria ser uma espécie de Nasser, o egípcio, ou Tito, o iugoslavo. Um líder ditatorial como tantos outros no mundo sob o pretexto de conduzi-lo ao desenvolvimento. Assim como outros tiranetes mandou até confeccionar um safari com o qual se apresentava magestaticamente. Até a faixa presidencial levou em sua fuga para São Paulo, caso voltasse para Brasília como chefe de todos os poderes. Foi um ato de vontade, unilateral, como todo ato de renúncia.

A minha renúncia enche-me a alma e o coração de tédio. A tua denúncia dá-me um desgosto que não tem remédio. Estes versos foram cantados pelo grande Nelson Gonçalves, são de autoria de Mário Rossi. A cada crise brasileira repete-se o jargão de Deodoro: Não renuncio, me derrubem!!!! Nenhum motivo é suficientemente grave para que o presidente renuncie, nem mesmo o fim de um era. Getúlio Vargas tentou se eternizar no poder em 1945, depois da anos de ditadura, com o apoio do seu maior inimigo, o Partido Comunista Brasileiro. Não resistiu a derrota do eixo e foi obrigado a renunciar com os tanques de guerra cercando o Palácio do Catete, no Rio de Janeiro.

Fernando Collor, quando percebeu que não tinha nem apoio popular, nem base de sustentação no Congresso, fez um apelo ; Não me deixem só.!!!! Renunciou antes de ser cassado e deixou o palácio da Alvorada no helicóptero presidencial a caminho da casa da Dinda. Imitou o gesto de Nixon, ainda que por motivos diferentes. A renúncia no regime parlamentarista é um ato corriqueiro e que culmina com um novo governo. Não há crise, não há arroubos, nem ameaças. Já no presidencialismo…

SOBRE O AUTOR

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Heródoto Barbeiro

Apresentador e editor-chefe do ‘Jornal da Record News’. Já foi professor de história, carreira que seguiu por quase 20 anos. Na imprensa, passou por CBN, Rádio Globo, Jovem Pan, TV Cultura, TV Gazeta e Diário de S. Paulo. Edita o Blog do Barbeiro – Barba, Bigode e Cabelo, hospedado pelo R7.

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