OPINIÃO

O fim da MPB FM e o dial que não reconhecemos

A demissão da equipe da MPB FM pegou de surpresa ouvintes e suscitou onda de lamentos nas redes sociais sobre o fim de mais uma emissora relevante no cenário musical carioca. Desde a zero hora desta quinta-feira, 1º de fevereiro, a frequência 90,3 MHz passou a replicar o sinal da vizinha BandNews Fluminense FM. As queixas sobre a perda de espaço para a cultura nacional se multiplicam, mas, para entendermos o que há por trás de mais este movimento de desinvestimento (para usar um eufemismo tão em voga no mundo da comunicação), é preciso contextualizar a encruzilhada com a qual o rádio se defronta no Rio de Janeiro e em outras capitais.

O rádio hertziano fatura cada vez menos, na esteira da profunda depressão econômica que atravessamos desde 2015. Radiofrequências são um bem escasso: desde os anos 1990, o dial carioca está totalmente loteado entre empresas (sobretudo privadas), muitas delas sem qualquer atividade além do gerenciamento de contratos de gaveta. Os “inquilinos” se sucedem a cada três ou cinco anos, sem lógica aparente, levando à eliminação de marcas estabelecidas.

A sucursal da BandNews no Rio abriu as portas em 2005, ocupando os 94,9 MHz que já tinham sido referência para a música independente, nas ondas da Fluminense FM, a Maldita. O surgimento da Band no mercado carioca levou a CBN a “matar” outra rádio tradicional, a Globo FM, bem colocada no segmento adulto contemporâneo – em poucos meses, a frequência 92,5 MHz passou a replicar o sinal da CBN AM. Em 2009, a Tupi AM fez o mesmo movimento em direção à Frequência Modulada, deslocando a Nativa, emissora de música popular dos Diários Associados, da frequência 96,5 MHz para 103,7, e com isso tirando do ar no Rio a tradicional rede Antena 1. Em resposta, a Globo AM arrendou a frequência da antiga Manchete FM, 89,5 MHz.

Com o AM em declínio (apenas um em cada dez ouvintes do rádio estão hoje nas ondas médias), houve uma corrida por posições em FM, que ficou sobrevalorizado nos últimos anos. Corre no mercado carioca que a Record, quando estava bem das pernas, ofereceu R$ 100 milhões por uma frequência bem no meio do dial carioca, pensando na formação de uma rede All News que acabou não saindo do papel. A proposta teria sido refugada pelo concessionário, que certamente tinha um horizonte de continuar faturando alto nos anos seguintes.

Só que vivemos, nos últimos anos, um ponto de inflexão. Contratos de arrendamento fechados por valores estratosféricos inviabilizaram diversos negócios e estão sendo revistos. O Sistema Globo de Rádio devolveu a posição de 89,5 MHz e tirou do ar a Beat 98, emissora própria, para abrigar a Globo AM na Frequência Modulada. Mesmo sempre disputando a liderança de audiência, a Beat virou uma programação automatizada rodando num notebook da Rua do Russell, assim como a antiga Globo FM. Já as Emissoras e Diários Associados devolveram os 103,7 para a Antena 1 e acabaram com a Nativa.

Era esperado, infelizmente, que a MPB FM, criada em 2002, seguisse o mesmo caminho, a partir do momento em que a empresária Ariane Carvalho vendeu 50% do negócio para o Grupo Bandeirantes, há cinco anos. A direção da Band não se pronunciou sobre o destino da frequência, mas o mercado já projeta a devolução dos 94,9 MHz para o Grupo O Fluminense, de Niterói. Nenhuma rádio, hoje, tem condições de fazer frente a um custo fixo anual de R$ 3 milhões a R$ 5 milhões, só em arrendamento de posição no dial – sem falar nos custos com folha de pagamento, equipamentos etc.

O leitor pode estar se perguntando: mas este não é um mercado clandestino? Vender frequências não deveria ser passível de punição? Em tese, de fato, o Estado poderia reaver as concessões de radiofrequência que se tornaram moeda de troca e descumprem a legislação em termos de representação da diversidade social e cultural do país. Na prática, no entanto, não há fiscalização. Estima-se que mais da metade das emissoras comerciais em operação no país esteja com outorga vencida e nem sequer pediu renovação. Nesse contexto, empresários arrendam suas posições no dial para quem oferecer mais. O que embaralhou as cartas é que há cada vez menos interessados em pagar pequenas fortunas por um negócio de horizonte incerto – como fizeram os donos da Rádio Mania, que desalojou a ressuscitada Cidade, única rádio rock no dial carioca, em julho de 2016.

Quem perde com a situação? Todos nós, ouvintes, naturalmente, que somos privados de emissoras que cumpriam um papel cultural destacado. No caso da MPB FM, uma emissora adulta contemporânea de conteúdo 100% nacional, muitos comunicadores deixarão saudades – a voz-padrão do inigualável Fernando Mansur (40 anos de ficha corrida no rádio carioca), Valéria Marques, Daniella Lapidus –, bem como programas do naipe do Palco MPB e do Samba Social Clube. Os ouvintes, claro, se sentem desrespeitados, até pela forma como as mudanças são conduzidas. À meia-noite, uma voz gerada em São Paulo irrompeu no meio dos versos de “Quem te viu, quem te vê”, de Chico Buarque, em versão de Zeca Pagodinho – aquela canção dos lindos versos “Hoje o samba saiu procurando você / Quem te viu, quem te vê / Quem não a conhece não pode mais ver pra crer / Quem jamais a esquece não pode reconhecer”.

Rádio só funciona se criar vínculo, formar hábito, se tornar imprescindível. Com um dial em permanente mutação, ao sabor de negócios nada republicanos, vão-se os hábitos e a fidelidade de uma audiência hoje cada vez mais disputada por outros atores do entorno digital, como os serviços de streaming. Pela frieza dos números, entende-se. Pelo afeto envolvido, lamenta-se. E muito.

Marcelo Kischinhevsky. Jornalista, doutor em Comunicação e Cultura pela UFRJ e professor do Departamento de Jornalismo e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Faculdade de Comunicação Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FCS/UERJ), onde coordena o AudioLab.

SOBRE O AUTOR

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