OPINIÃO

O sonho de pedra – por Heródoto Barbeiro

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(Imagem: Reprodução/orionstone.com)

A pedra da título ao mais novo artigo do jornalista Heródoto Barbeiro para o Portal Comunique-se

No dia 21 de abril de 1960 o presidente da república fechou solenemente os portões do Palácio do Catete. A multidão reagiu com aplausos. Não era mais uma das crises políticas com a ameaça de bombardeio da sede do governo como tantas vezes ocorrera. Nem o cerco do palácio pelos tanques herdados da segunda guerra mundial como na deposição do ditador Getúlio Vargas. Era o marco da transferência da capital para o interior do Brasil.

O presidente Juscelino pegou o avião presidencial e no mesmo dia inaugurou Brasília, chamada pelo pessoal da propaganda de A Capital da Esperança. Era um homenagem a um participante da Inconfidência Mineira, executado em 21 de abril de 1792. Ele tinha 45 anos. Uma inauguração como nunca se tinha visto desde que o Rio de Janeiro tinha sido a sede principal do governo, em 1763. Juscelino e a cidade passaram para a história do pais. Ele consolidou o sonho de todo político: construiu e inaugurou.

Inaugurar é uma tradição acalentada pelos políticos desde a época do império. É o momento da consagração de quem se empenhou em realizar uma obra, por isso não se pode descuidar dos inauguradores. Todos acham que têm o direito de cortar a fita, soltar o laço, puxar a cortina que esconde a placa de inauguração. É um ato tão antigo como os faraós que exigiam que seus nomes fossem impressos nas pedras de templos e pirâmides. Por isso é preciso cuidado.

A rainha Elizabeth II veio ao Brasil em 1968. Não escapou de participar da inauguração do MASP e do início do trabalho na ponte Rio-Niterói. Afinal havia dinheiro inglês lá. O sucesso de público e mídia foi de tal ordem que nenhum outro governante abriu mão mais de capitanear a inauguração. Transporte grátis, bandas contratadas, artistas populares, crianças das escolas com bandeirinhas ou outro adereço festivo e muito puxa saco para dar volume no evento. Tudo com grande cobertura da mídia, oficial ou não.

Isto tudo gerou um conflito federativo no Brasil. A ordem era mais ou menos assim: pequenas obras, pinguelas, fontes luminosas, etc. eram para o prefeito. Estradas, pontes, hospitais, escolas maiores, etc. eram do governador. Ao presidente competia ou participar dessas inaugurações como coadjuvante, ou o centro das atenções se fosse obra federal como uma ferrovia, porto, estradas de longo alcance, universidades, etc.

Porém, o poder central passou a participar de tudo o que provinha do seu orçamento. Lá estava o ou a presidente na distribuição de tratores para a prefeitura, ambulâncias, cisternas, conjunto de casas populares, pequenas pontes, e outras obras. Inauguração passou a ser prioritária na agenda presidencial, fosse o que fosse. Descobriu-se que nada podia ajudar mais a imagem junto à população. Só perde para as infinitas solenidades sobre coisa nenhuma no Palácio da Alvorada.

SOBRE O AUTOR

Foto de perfil de Heródoto Barbeiro

Heródoto Barbeiro

Apresentador e editor-chefe do ‘Jornal da Record News’. Já foi professor de história, carreira que seguiu por quase 20 anos. Na imprensa, passou por CBN, Rádio Globo, Jovem Pan, TV Cultura, TV Gazeta e Diário de S. Paulo. Edita o Blog do Barbeiro – Barba, Bigode e Cabelo, hospedado pelo R7.

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