OPINIÃO

Precisamos falar sobre a Cracolândia – por Fernando Guifer

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SÃO PAULO, SP, BRASIL, 21-01-2013, 10h00: Agentes da secretaria de saúde tentam convercer usuários de crack a se internarem voluntáriamente em clínicas de reabilitação no centro de São Paulo. (Foto: Marcelo Camargo/ABr)

Interessante a iniciativa da gestão João Doria em acabar com a Cracolândia, afinal, estamos falando de um lugar em que habita, antes de qualquer coisa, o sofrimento humano em sua maior escala.

E lugares que não edificam positivamente nossa existência precisam realmente de um atesado de óbito para nos libertar e possibilitar uma vivência honrada na busca incessante por algo que é do direito de todos: a felicidade.

No entanto… cautela, amigos. Muita calma nessa hora!

Eu sei que é desesperador olhar aquela região e todos os que ali se suicidam na unha como se fossem invisíveis perante a sociedade, à mídia e o estado. Mas não se pode tomar atitudes precipitadas diante de um problema tão acentuado e que pulsa firme há anos sem demonstrar qualquer sinal declarado de falência.

Do contrário, fica dificílimo defender as boas intenções que possam existir por parte da prefeitura nesse cenário, até pq, no inferno só tem capeta bem intencionado também.

PRIMEIRO: não acredite piamente nessa utópica-verdade-absoluta de que na sofrida Cracolândia só tem bandido – e que, portanto, todos lá precisam ser fuzilados ou tratados como lixo.

Vejo algumas pessoas propagando frases como “tem que matar todo mundo mesmo” ou “vai lá e adota um crackeiro já que você gosta!”, por exemplo.

Esse é o comum/barra/controverso discurso de paz que alguns propagam em prol de um país melhor. E, geralmente, aspas desse tipo vêm daqueles que inundam nossas timelines com frases politicamente corretas, com mensagens bíblicas ou com citações de amor à lá Clarice Lispector.

Não se esqueçam de que o ódio disseminado por vocês, população “de bem”, se reflete nos governantes que temos e traduz muito bem o luto em que vive o Brasil desde sempre.

Cuidado para não tornar ressonante uma voz que vai impactar negativamente seu futuro, seu entorno e também o das pessoas que tu ama.

Ecoe positividade, alegria, entusiasmo, dignidade e a crença nos irmãos que padecem, seja na Cracolândia ou em qualquer um dos quatro cantos desse país que clama pela honradez de seus governantes e habitantes – rememorando sem pestanejar que o dia de amanhã não lhe pertence.

Não é fácil dialogar com usuários que (aparentemente) não querem se tratar, que não aceitam abrigo, enfim. Isso é mais do que compreensível e nesse texto não há defesa gratuita dos usuários na base do “mais amor, por favor, custe o que custar”, pelo contrário.

O traduzido aqui segue na direção do fim da Cracolândia sim, porém, não da forma agressiva como foi/tem sido conduzida pelas autoridades, varrendo as pessoas como lama de enchente e as carregando como sacos de estrume sem qualquer valor humano.

Deve ser unânime entre nós a compreensão de que nem todos que ali vivem são bandidos, meus amigos. Existem sim os bandidos (como em qualquer lugar), mas grande parte daquelas pessoas não queriam estar por lá e sofrem demais por amanhecer e anoitecer nesse tipo de situação.

Lembremos que cada “zumbi” da Cracolândia tem família, hall de amigos, memória, saudades, anseios, angústias, fome, frio, sonhos, amor, histórias para contar, falta do colo de mãe, do passeio no parque com o pai, enfim, ausência de coisas e/ou situações que os permitam levar uma trajetória digna de vida durante essa passagem espiritual.

O uso descontrolado de drogas é também uma questão de saúde pública, e isso jamais pode ser colocado em segundo plano por nós, já que exime a responsabilidade dos verdadeiros culpados por tudo isso.

Para qualquer governo é mais fácil expulsar para mostrar serviço, e também pq não se têm culhão suficiente para fornecer um sistema público de qualidade nesse aspecto. É muito mais barato dar porrada do que disponibilizar condições essenciais de vitalidade para que as pessoas nem precisem chegar ao ponto que – por vezes – chegam.

Salve-os de um jeito assertivo, João Doria!

Qualquer ajuda ou projeto em prol daquela gente será indiscutivelmente bem-vindo. Contudo, nada que envolva esse tema poderá ser feito de qualquer jeito ou, popularmente falando: nas coxas.

Se o primeiro passo no fluxograma do programa é abordá-los, isso deve ser feito de um jeito atrativo e compensador, e não na base do spray de pimenta e cassetete.

Startar um novo ciclo na base da agressão não demonstra inovação em sua proposta, prefeito. E se não existir novidade positiva desde o primeiro passo, todo programa se iguala a qualquer gestão anterior que nunca deu jeito nessa triste realidade chamada Cracolândia. Você, João Doria, é um empresário, e, mais do que eu, tu sabe que uma ideia ótima pode parar no ralo se for mal executada por quem a conduzi-la desde o início.

É preciso ter sabedoria e inteligência emocional para que seu projeto não fira seres que precisam mais de sua ajuda do que de suas porradas. Não precisa ser vidente para enxergar o tanto de bordoadas gratuitas que a vida já despeja diariamente lá na Cracolândia (ou precisa?).

Prefeito, jamais esqueça que lhe deram mais do que a faca e o queijo na última eleição. Deixaram em seu poder a chave da maior cidade da América do Sul e o confiaram a uma posição extremamente privilegiada que, querendo ou não, se traduz em credibilidade. E o que se espera de sua parte é que essa confiança e credibilidade jamais sejam quebradas nos próximos quatro anos.

Procure observar além do que sua retina lhe permite, João.

Não somente por gratidão aos que o elegeram, mas, principalmente, pelos valores pessoais que aprendeu com sua família desde a infância, e que não tenho dúvidas terem sido do bem (até pq não sou ninguém para julgar o contrário).

A população que o “contratou” comprando a ideia de um gestor azeitado no sucesso corporativo, imagina ter colocado no poder um ser humano que pensa no outro ser humano, e que enxerga muito além dos demais 12 milhões de habitantes. Do contrário não faz sentido tua presença nessa sala espaçosa, e seu legado não será nada positivo por mais que tente se diferenciar dos demais que já ocuparam esses mesmos metros quadrados aí no gabinete.

Seu trabalho é separar o joio do trigo, é identificar os adoentados para tratá-los como adoentados, e prender os bandidos para tratá-los como bandidos. Não se pode colocar todos no mesmo saco, pq não são parte da mesma farinha. Aos bandidos e traficantes, punição e cadeia; aos usuários dependentes, uma vida nova.

O senhor está aí para ver o que ninguém vê, ter uma perspectiva 360 graus dos problemas, contar até 10, respirar, ser imparcial nas decisões, ouvir com sabedoria e, principalmente, ter humildade para entender que não se é o dono da verdade absoluta – e que assim como as pessoas lá da Cracolândia erram, você também erra.

Note grande parte daquelas pessoas com os olhos de um alguém que poderia ter um filho ou uma mãe vivendo uma situação parecida, não por ser bandido ou bandida. Mas talvez por estar realmente doente e não ter quem lhe estenda às mãos – ou por estar vazio e não ter quem os preencha o fundo da alma.

Estendemos nossas mãos e abaixemos nossas armas.

Emane sempre o bem, pois ele só volta se já tiver ido!

SOBRE O AUTOR

Fernando Guifer

Jornalista e escritor. Formado em comunicação social pela Universidade Nove de Julho (Uninove) e especializado em jornalismo esportivo pela FMU. É autor do livro Diamante no Acrílico – entre a vida e o melhor dela, em que narra o período que acompanhou a batalha de sua filha, Laís, que nasceu prematura e ficou internada por 80 dias.

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