OPINIÃO

Profissão Genro – por Heródoto Barbeiro

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Até a proclamação da república não havia uma única universidade no Brasil. Não era preocupação da elite proprietária de escravos, detentora de latifúndios e exportadora de monocultura. As escolas superiores eram isoladas e seguiam a formação de profissionais liberais com direito a ocupar postos de trabalho privilegiados geralmente no governo. As faculdades de direito fundadas ainda na época de D. Pedro I eram não  só uma via para ascensão econômica, mas também política e social. Os bacharéis, que ostentavam garbosamente o título de “doutor “ tinham mais facilidade de se aproximar dos “bons partidos”, ou seja a filha de um rico fazendeiro. Sua profissão, muitas vezes, se resumia em ser o genro, o pai dos netos do senhor ou seu sucessor, haja vista que mulheres não eram habilitadas a dirigir capatazes e jagunços. A faculdade era o portão para o ingresso na política manipulada pela elite proprietária do Brasil. No final do século 19 havia 24 cursos superiores e cerca de dez mil estudantes. A maioria esmagadora de brancos.

O ensino público não era gratuito e isso foi confirmado por Getúlio Vargas, quando promoveu uma reforma educacional. As universidades foram autorizadas desde que as faculdades fossem aglutinadas em torno de uma Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Contudo houve uma intensa disputa entre as instituições religiosas e as laicas. A Igreja tinha o domínio das escolas e do conteúdo do que era ensinado desde o período colonial. Assuntos e livros eram considerados inadequados se colidissem com a ideologia do catolicismo. Os que estavam no índice dos livros proibidos, nem pensar, como a História da Instalação da Inquisição em Portugal, de Alexandre Herculano. Ou a teoria da evolução das espécies  de Charles Darwin. A Igreja só aceitou a concorrência da escolas superiores leigas depois que ganhou como compensação a introdução do ensino religioso no curso básico, ainda que optativo. O catolicismo, é claro. A grande mudança na época foi o crescimento das universidades públicas e privadas ainda que poucos tinham condições econômicas para fazer o curso.

O academicismo sempre viu o aproveitamento dos avanços científicos pela iniciativa privada com maus olhos. O que foi conseguido com o dinheiro dos impostos deveria reverter só para os cidadãos e não para os empresários. Essa postura atrasou em décadas uma parceria entre cientistas e empreendedores. Ainda assim o ensino superior é para grande parte dos estudantes, a única via para ter ascensão econômica e social. Pobres e ricos batiam nas portas dos vestibulares em condições desiguais e disputavam as melhores escolas, geralmente universidades públicas. O aluno da escola pública perdeu a competição quando a qualidade de ensino despencou e ele não tinha condições de pagar os cursinhos pré vestibular, ou os caríssimo colégios abertos para a elite econômica. O currículo do segundo grau eram as questões dos vestibulares anteriores treinados por professores. Separar vagas de universidades públicas para estudantes das escolas secundárias públicas é uma ação afirmativa para equilibrar as oportunidades de acesso a universidade.

SOBRE O AUTOR

Heródoto Barbeiro

Apresentador e editor-chefe do ‘Jornal da Record News’. Já foi professor de história, carreira que seguiu por quase 20 anos. Na imprensa, passou por CBN, Rádio Globo, Jovem Pan, TV Cultura, TV Gazeta e Diário de S. Paulo. Edita o Blog do Barbeiro – Barba, Bigode e Cabelo, hospedado pelo R7.

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