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Decisão da Caixa gera alerta sobre metas do governo

Decisão da Caixa gera alerta sobre metas do governo
Decisão da Caixa gera alerta sobre metas do governo

Mudanças recentes no modelo de crédito habitacional acendem um alerta no setor. Especialistas avaliam que a redução da capilaridade operacional pode comprometer o ritmo de contratações do Minha Casa, Minha Vida, colocando em risco metas oficiais do governo e impactando incorporadoras, empregos e a economia.

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A recente decisão da Caixa Econômica Federal de revisar o modelo de remuneração dos correspondentes bancários que atuam na intermediação do crédito habitacional passou a ser analisada com atenção por especialistas do mercado imobiliário, da construção civil e por observadores das políticas públicas. A discussão não se concentra apenas na relação contratual com os Correspondentes Caixa Aqui (CCAs), mas nos efeitos sistêmicos que a medida pode provocar sobre a execução das metas habitacionais do Governo Federal e sobre a economia real.

A Caixa é o maior agente de financiamento habitacional do país e o principal operador do programa Minha Casa, Minha Vida. Para viabilizar essa atuação em um território de dimensões continentais, a instituição se apoia em uma estrutura descentralizada de atendimento, formada majoritariamente pelos CCAs, responsáveis por levar o crédito até municípios onde a presença de agências bancárias é limitada ou inexistente.

No mercado imobiliário e financeiro, é amplamente reconhecido que a expressiva maioria das contratações habitacionais da Caixa acima de 90% dos contratosdepende direta ou indiretamente da atuação dos Correspondentes Caixa Aqui, especialmente fora dos grandes centros urbanos. Essa capilaridade é o que permite que o crédito alcance mais de 90% dos municípios brasileiros, apesar de as agências bancárias estarem concentradas em pouco mais da metade das cidades.

O ponto de preocupação, segundo os entrevistados especialistas do setor, é que a combinação entre remuneração defasada e reduções adicionais pode levar ao fechamento de um número relevante de CCAs, sobretudo os de menor porte. Esses operadores representam a maior parte da rede e atuam justamente nos pequenos municípios, onde não há alternativas de atendimento. A eventual saída desses agentes tende a gerar gargalos operacionais, reduzir a capacidade de originação de crédito e comprometer o ritmo de contratações.

Esse cenário ganha especial relevância diante das metas oficiais do Governo Federal para o Minha Casa, Minha Vida. O Ministério das Cidades anunciou que o governo pretende finalizar 2026 com três milhões de unidades contratadas no programa, o que exige a contratação de cerca de um milhão de novas moradias apenas em 2026. Para viabilizar esse objetivo, a estratégia oficial prevê elevar o ritmo mensal de contratações de aproximadamente 60 mil para 80 mil unidades.

Além disso, o governo incorporou definitivamente a classe média ao programa, com a meta de ampliar as contratações mensais dessa faixa de renda de seis mil para dez mil unidades, encerrando 2026 com cerca de 120 mil contratos nesse segmento. O programa contará com R$ 144 bilhões do FGTS no próximo ano, além de R$ 5,5 bilhões do Orçamento e R$ 17 bilhões do fundo da Caixa destinados aos subsídios da Faixa 1, voltada a famílias sem capacidade de assumir financiamento, segundo dados do Ministério das Cidades.

Na avaliação de representantes do setor produtivo, a disponibilidade de recursos não é o principal risco. O desafio está na capacidade operacional de transformar orçamento, subsídios e funding em contratos efetivamente assinados. É nesse ponto que a rede de correspondentes se mostra estratégica.

Para Clausens Roberto Duarte, vice-presidente de Habitação de Interesse Social da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) e presidente da Comissão de Habitação de Interesse Social (CHIS), a capilaridade operacional é decisiva para o sucesso da política habitacional.

"Embora os operadores de crédito imobiliário tenham agências em pouco mais da metade dos municípios brasileiros, ao longo dos últimos dez anos mais de 90% das cidades registraram contratações habitacionais. Isso é resultado direto de uma estrutura descentralizada de atendimento, fortemente apoiada pelos correspondentes bancários", afirma.

Segundo Clausens, qualquer redução relevante na atuação desses canais tende a produzir efeitos em cadeia. "Menos pontos de originação significam maior concentração operacional, sobrecarga das agências, aumento de prazos, retrabalho e perda de eficiência", observa. Para ele, esse tipo de gargalo compromete não apenas o setor produtivo, mas a própria efetividade das políticas públicas.

O incorporador Caio Lobo reforça que o impacto ultrapassa o universo dos correspondentes. "O Brasil é um país de dimensões continentais, e isso traz diversas dificuldades para que os programas habitacionais cheguem a todas as regiões. Nesse sentido, os CCAs vêm fazendo um trabalho muito importante em dar capilaridade aos programas. O Minha Casa, Minha Vida teria uma escala muito menor sem a atuação desses canais", afirma.

Na avaliação de Caio, a redução da capacidade de originação afeta diretamente incorporadoras e compradores. "Sem canais eficientes de acesso ao crédito, as incorporadoras vão sofrer para dar vazão ao volume necessário de vendas. Isso gera impacto no curto prazo, mas é ainda mais preocupante no médio e longo prazo, porque trava lançamentos, desorganiza o planejamento e reduz a oferta de moradia", diz.

"Do ponto de vista econômico, o efeito é ampliado. O crédito habitacional é um dos principais motores da construção civil, setor intensivo em mão de obra e com forte capacidade de geração de renda. A desaceleração na contratação de financiamentos tende a repercutir sobre empregos, investimentos e arrecadação, além de frustrar expectativas criadas em torno das metas públicas de habitação", complementa.

A Caixa Econômica Federal tem afirmado que revisões em seus modelos operacionais buscam maior eficiência e equilíbrio econômico. Ainda assim, os especialistas supracitados avaliam que qualquer ajuste que reduza a capilaridade da originação, especialmente em um ambiente de metas ambiciosas e alta demanda, pode se tornar um fator de risco para o cumprimento dos objetivos do programa habitacional e para a estabilidade da cadeia imobiliária.

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