O custo de produzir no Brasil começa a ser formado antes mesmo da fabricação de bens, obras ou mercadorias. Ainda na etapa de importação de insumos, despesas como Imposto de Importação, ICMS, taxas portuárias, armazenagem e interpretações fiscais distintas entre os estados passam a compor o valor final dos produtos. Segundo o Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT), a carga tributária brasileira gira em torno de 32,32% do Produto Interno Bruto (PIB), percentual acima da média latino-americana.
Rodolfo Granada Midea, CEO da Fácil Negócio Importação, explica que "esse custo inicial não permanece restrito à importação. Ele percorre toda a cadeia produtiva, influenciando o preço dos insumos, o valor do frete — impactado pela tributação sobre combustíveis —, a margem operacional das empresas e, em alguns casos, reaparece anos depois, na sucessão empresarial, quando a ausência de estrutura societária adequada expõe novos passivos fiscais".
Antes de existir obra, mercadoria na prateleira ou produto na indústria, parte relevante do custo já foi formada. Quando o insumo finalmente chega ao destino, ele carrega um peso que não nasceu ali, mas que foi acumulado ao longo de etapas fiscais, logísticas e regulatórias. Esse custo segue viagem. Vira preço de insumo, vira valor de frete — pressionado pelo diesel também tributado —, comprime margens na apuração fiscal e pode reaparecer de forma silenciosa no futuro, quando a empresa enfrenta processos de sucessão ou reorganização societária.
Não se trata de um tributo específico, mas do trajeto que o custo percorre dentro do negócio, que ajuda a explicar por que produzir, no Brasil, custa mais caro do que parece e por que alguns empresários já começam a fazer essa conta fora do país. "Você começa a perder margem antes mesmo de começar a produzir", pontua Rodolfo.
No comércio exterior, os tributos federais e estaduais incidem de forma cumulativa. Impostos são calculados sobre o valor CIF (Cost, Insurance and Freight), que inclui mercadoria, seguro e transporte, o que faz com que o imposto incida sobre bases já tributadas. Na prática, essa estrutura pode elevar de forma significativa o custo de produtos importados, dependendo da classificação fiscal e do estado de destino.
Uma parcela relevante desse impacto nasce ainda no porto, antes do início da produção. Para Celso Zaffarani, fundador da Zaffarani Design Build, até setores tradicionalmente considerados menos dependentes da importação, como a construção civil, absorvem esse efeito.
"A obra não começa na fundação. Começa na importação. Taxas portuárias, armazenagem, ICMS e interpretações fiscais entre estados. Quando o material chega ao canteiro, ele já encareceu a obra", afirma.
O ICMS é um dos principais vetores desse aumento. Embora as alíquotas nominais variem entre 17% e 18%, o cálculo "por dentro" pode resultar em uma carga efetiva próxima de 25%, conforme detalha a Secretaria da Fazenda de São Paulo. Somam-se a isso os tributos de importação, que podem variar entre 10% e 35%, dependendo do produto, além da volatilidade do frete internacional. Esse custo logístico integra novamente a base de cálculo dos impostos, elevando o preço final antes mesmo do início da execução.
Quando o insumo vira produto e entra na etapa de distribuição, o custo continua a se acumular. O transporte rodoviário, predominante no Brasil, é fortemente impactado pela tributação sobre o diesel. "O tributo sobre o combustível não encarece apenas o transporte; ele infla a base de cálculo dos impostos da mercadoria na ponta final", explica Celio Martins, gerente de novos negócios da Transvias.
Nesse cenário, a organização logística passa a ser uma variável técnica relevante para reduzir custos redundantes, como o redespacho e a sobreposição de intermediários. Do ponto de vista contábil, a dificuldade está em identificar onde a margem está sendo perdida. Para Lucas Oliveira, fundador da LCS Contabilidade, muitas empresas absorvem aumentos sucessivos de custo sem mapear corretamente seus impactos fiscais. "A empresa paga mais na importação, no insumo e no frete — e ainda deixa créditos tributários sem aproveitamento, operando sem planejamento fiscal", afirma.
Essa dinâmica tem levado empresários a reavaliar suas estruturas produtivas. Para Rodrigo Bueno Prestes, advogado especializado em Direito Internacional Econômico, a comparação entre países se tornou uma análise recorrente. "Em alguns setores, estruturar parte da produção no Paraguai ou no Uruguai é mais barato do que manter toda a operação no Brasil. Não é ideologia. É cálculo tributário e de custo", afirma.
O Paraguai possui carga tributária estimada em 13,9% do PIB e regimes como a Lei Maquila, com imposto de até 1% para operações voltadas à exportação. No Uruguai, regimes especiais para centros logísticos e serviços exportadores atraem empresas em busca de eficiência operacional.
O impacto acumulado da carga tributária pode reaparecer no momento mais sensível da empresa: a sucessão. Segundo Adriana Barros, advogada-sócia do Ribeiro Barros Advocacia, a falta de planejamento patrimonial transforma a morte do fundador em um novo gargalo fiscal. "Sem uma estrutura como holding familiar, a empresa enfrenta inventário demorado e ITCMD que pode chegar a 8%, dependendo do estado", afirma. "Não é um imposto específico", resume Midea. "É uma série de tributos sobrepostos que afetam todo o negócio".








