COMUNICAÇÃO

Nestlé notifica jornalistas por causa de reportagem

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(Imagem: reprodução)

Nas notas encaminhadas à equipe de jornalistas do site  O Joio e o Trigo, a Nestlé pede esclarecimentos sobre dois conteúdos recentemente publicados

O site O Joio e o Trigo foi notificado duas vezes pelo departamento jurídico da Nestlé — multinacional do ramo de alimentos e bebidas — após publicação de conteúdos que envolviam uma iniciativa e produtos da empresa. A notificação foi feita por meio de cartas datadas de 7 de junho, assinadas pelo vice-presidente jurídico e de relações institucionais da Nestlé, Flávio de Souza.

Nas notas encaminhadas à equipe de jornalistas do site, a Nestlé pede esclarecimentos sobre dois conteúdos: a reportagem “Nestlé lança calculadora que induz a consumir açúcar em excesso”, que questiona os diferentes limites de consumo diário de açúcar utilizados pela empresa para desenvolver a ferramenta; e a série de postagens sobre rotulagem chamada “Joio no Rótulo”, que aponta o excesso de ingredientes como sal, açúcar e gordura em produtos de diversas marcas, incluindo a Nestlé, com base nas informações contidas no rótulo.

Nas cartas há um pedido para que o site avalie melhor os conteúdos sobre produtos da empresa e afirma que tanto a reportagem quanto as publicações do Joio no Rótulo “parecem ter única finalidade de denegrir a imagem” da Nestlé. O Joio afirma, no entanto, que as publicações foram guiadas por critérios jornalísticos de relevância do assunto e que as diretrizes utilizadas no desenvolvimento do “Joio no Rótulo” são baseadas nas “recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e em evidências científicas que apontam a necessidade de limitar ou evitar o consumo de certos produtos”.

Nas cartas há um pedido para que o site avalie melhor os conteúdos sobre produtos da empresa

Para a publicação da reportagem sobre a calculadora de ingestão de açúcar, os jornalistas do Joio entraram em contato com a Nestlé por meio da assessoria de imprensa, que respondeu com uma nota. O mecanismo desenvolvido pela empresa separa o açúcar utilizado em preparações caseiras daquele que vem em produtos industrializados. Para o primeiro grupo, o limite adotado é o proposto pela OMS de 50 gramas de açúcar por dia, enquanto para o segundo grupo — que inclui produtos da Nestlé — o limite é mais alto, de 90 gramas por dia, estabelecido pela União Europeia. Em nota enviada pela assessoria, a empresa afirma que escolheu outra medida para produtos processados e ultraprocessados pois o limite estabelecido pela OMS não leva em conta os açúcares adicionados e os açúcares intrínsecos, ou seja, aqueles que estão presentes em ingredientes da composição, como leite.

Moriti Neto, repórter e editor do site, comenta que a via utilizada pela empresa para contatá-los chama a atenção. “Eles não usaram o caminho de praxe, que seria um primeiro contato e resposta via assessoria de comunicação. Apelaram diretamente para a via jurídica, o que, para nós, caracteriza uma óbvia tentativa de intimidação”.

Procurada pela Abraji, a assessoria de imprensa da Nestlé afirmou que a reportagem sobre a Calculadora de Açúcar contém “informações incorretas do ponto de vista nutricional”, mas não esclareceu quais. Segundo a assessoria, a carta enviada pelo vice-presidente jurídico e de relações institucionais da Nestlé teve o intuito de “elucidar questões técnicas que a companhia entende que deveriam ser esclarecidas”.

“Apelaram diretamente para a via jurídica, o que, para nós, caracteriza uma óbvia tentativa de intimidação”

Esta não é a primeira vez que o Joio é contatado por empresas do ramo alimentício. Em julho de 2018, a Coca-Cola enviou uma notificação extrajudicial para que o site retirasse do ar imagens que envolviam produtos da marca. A equipe decidiu então atender ao pedido da empresa, por não ter orçamento o suficiente para arcar com os custos de um eventual processo judicial. Desta vez, no entanto, os conteúdos questionados pela Nestlé não devem sair do ar.

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Por Natália Silva.

SOBRE O AUTOR

Abraji

Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo. Criada em 2002 por um grupo de jornalistas brasileiros interessados em trocar experiências, informações e dicas sobre reportagem, principalmente sobre reportagens investigativas. É mantida pelos próprios jornalistas e não tem fins lucrativos.

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