Valorizar princípios como família, maternidade, casamento, feminilidade e fé são atribuições comuns a mulheres cristãs conservadoras. Mas, num filme recém-lançado nos cinemas brasileiros, este perfil é retratado como uma ameaça. No longa-metragem, mulheres se unem pela fé numa espécie de retiro VIP para alcançar os valores da "mulher virtuosa" – uma atribuição à passagem bíblica encontrada em Provérbios 31 – e acabam transformando o ambiente num local de manipulação, violência e perigo.
Disfarçada de ficção cinematográfica, a trama é, na verdade, uma tentativa de construir um imaginário perverso de mulheres que fogem de pautas progressistas, enquadrando-as numa narrativa de terror. É como avalia a advogada Lia Noletto, cofundadora do Movimento Mulheres Reais do Brasil. "É lamentável que haja uma tentativa no âmbito cultural de transformar mulheres que vivenciam o propósito cristão em caricaturas. Essa estratégia de associar a fé e a devoção a profanações e até a crimes já foi feito há dois mil anos. Infelizmente hoje se repete, mas sabemos que agora é alimentada por uma agenda ideológica que não interessa às mulheres cristãs", critica.
No Instagram, o Movimento Mulheres Reais do Brasil designa-se como um grupo destinado a "despertar mulheres para reconhecerem seu valor, desenvolverem seus talentos e ocuparem espaços de transformação". Ao tratar do filme, de origem nacional, a advogada identifica um modus operandi que tenta exatamente desarticular esse tipo de olhar sobre mulheres cristãs. "Primeiro vem a caricatura, depois o ridículo. Depois disso, vem a associação ao atraso, ao fanatismo e, finalmente, ao perigo. Quando essas etapas se consolidam, as pessoas já não veem mais necessidade de discutir o que essas mulheres pensam", afirma.
Lia Noletto considera que uma sequência narrativa que faz a religiosidade ser transformada em terror nasce de uma "ideia absurda de que uma mulher recatada, dedicada primeiramente a Deus e à família, pode esconder um comportamento antissocial".
"Refletir sobre isso importa porque cultura não é apenas entretenimento. Cultura produz símbolos, que por sua vez produzem associações e imaginários. Esses imaginários interferem na maneira como pessoas reais passam a ser percebidas. Então quando fé, feminilidade cristã, casamento, maternidade, submissão bíblica e conservadorismo são reunidos dentro da linguagem do terror, constrói-se uma representação específica desse universo", afirma a cofundadora do Movimento Mulheres Reais do Brasil. "Neste momento, precisamos então perguntar: que imagem da mulher cristã está sendo construída?", completa.
Período eleitoral
A líder do movimento estranha o fato de o lançamento do longa ocorrer a pouco mais de uma semana das eleições nacionais. Para ela, o ataque à imagem das mulheres conservadoras através de um filme de terror indica uma estratégia que vai além do aspecto cultural. "Não tem como deixar de associar a estreia do filme com a contagem regressiva para as eleições. É uma forma de estigmatizar quem pensa diferente, quem se conduz pela fé ao invés de apoiar pautas esquerdistas. Nós estamos sendo atacadas de vários lados, mas não vamos ceder", garante.






