O movimento Janeiro Branco, dedicado à conscientização sobre a saúde mental, tem trazido à tona debates sobre o que adoece as pessoas em silêncio. Neste cenário, um tema urgente ganha destaque: a vulnerabilidade de mulheres com superdotação à violência emocional, especialmente aquelas que recebem o diagnóstico tardiamente.
Baseando-se nos estudos da psicóloga Elaine Aron sobre alta sensibilidade, muitas dessas mulheres carregam uma percepção ampliada do mundo, captando nuances emocionais com profundidade antes mesmo que se tornem visíveis. Essa característica neurocognitiva, frequentemente confundida com "exagero" ou instabilidade, pode se transformar em fator de risco quando não identificada.
"Sem diagnóstico, validação ou linguagem para compreender quem são, muitas mulheres superdotadas aprendem a se moldar para caber nos ambientes. Nesse movimento de adaptação excessiva, podem permanecer por longos períodos em relações emocionalmente assimétricas, marcadas por controle e silenciamento", explica a psicóloga Luciana Zanon da Silva, especialista em superdotação adulta.
A violência sutil e o impacto na saúde
Dados da ONU Mulheres indicam que uma em cada três mulheres no mundo já sofreu violência física ou sexual. No Brasil, a violência psicológica é uma das mais frequentes. Embora os números sejam globais, o impacto em mulheres neurodivergentes possui especificidades.
Estudos sobre altas habilidades revelam que esse grupo tende a apresentar hipersensibilidade emocional e empatia elevada. Em ambientes afetivos instáveis ou ameaçadores, essa configuração neurológica pode gerar sobrecarga, ansiedade crônica e esgotamento psíquico.
"A violência emocional raramente é explícita. Ela se manifesta no tom, na retirada de afeto e na inversão de culpa. O corpo da mulher superdotada percebe antes da consciência e entra em estado de alerta. Surge a hipervigilância e o medo difuso", detalha Luciana.
O diagnóstico como proteção
Para a especialista, o diagnóstico tardio de superdotação funciona como um divisor de águas na saúde mental. Ele não serve apenas para nomear uma capacidade cognitiva, mas para reorganizar a narrativa de vida e ressignificar escolhas.
"O diagnóstico devolve contexto ao sofrimento, e contexto é proteção. Ele permite compreender por que certos relacionamentos foram adoecedores e ajuda a reafirmar que a segurança emocional não é um luxo, mas uma condição de saúde, especialmente para quem sente o mundo em profundidade", conclui Zanon.
Sobre a especialista
Luciana Zanon da Silva é mestre, psicóloga, psicoterapeuta e mediadora de conflitos. Especialista em saúde emocional feminina, processos biográficos e superdotação adulta, atua auxiliando mulheres a reconhecerem suas especificidades neurológicas e a construírem relações emocionalmente seguras.






