Portal Comunique-se

O que a entrevista de desligamento de emprego não revela

O que a entrevista de desligamento de emprego não revela

Para Adeildo Nascimento, especialista em cultura organizacional, respostas dadas por profissionais que deixam a empresa podem estar cada vez mais distantes da realidade. Nas redes sociais, segundo ele, críticas e percepções sobre o ambiente de trabalho tendem a aparecer com maior espontaneidade

Compartilhe

"A franqueza é a primeira virtude de um defunto", escreveu Machado de Assis em Memórias Póstumas de Brás Cubas. A frase serve de ponto de partida para uma reflexão de Adeildo Nascimento, especialista em cultura organizacional e CEO da DHEO Consultoria e da DHEO Educação, sobre um dos instrumentos mais utilizados pelo RH, que é a entrevista de desligamento.

"Se antes se imaginava que o funcionário, já sem vínculo com a empresa, estaria mais disposto a falar abertamente, hoje esse cenário mudou. A manutenção da reputação organizacional, principalmente nas redes, faz com que as pessoas omitam informações culturais importantes", afirma.

Para Nascimento, o problema não está apenas na sinceridade das respostas, mas também no momento em que elas são coletadas. Quando o profissional chega à entrevista de desligamento, a decisão de sair já foi tomada e boa parte das experiências que influenciaram essa escolha ficou para trás. Além disso, o profissional continua inserido no mercado, conectado a colegas e lideranças e presente em redes como LinkedIn e Instagram.

Ele observa que "as memórias póstumas de um crachá têm produzido dados que servem pouquíssimo para a transformação cultural. Informações sobre clima, liderança, comunicação ou remuneração podem até apontar problemas pontuais, mas não necessariamente revelam a cultura que está instalada na organização".

Onde a verdade aparece

É nesse ponto que as redes sociais entram na discussão. Nascimento recorre ao conceito do psicólogo John Suler, conhecido pelo estudo sobre o efeito da desinibição online, para explicar por que as pessoas podem se expressar de maneira diferente no ambiente digital. O anonimato, a comunicação sem interação presencial imediata e a menor percepção de autoridade favorecem manifestações mais espontâneas.

"Anonimato não é confidencialidade. Enquanto a entrevista formal pode estimular respostas protocolares, ambientes digitais e comunidades virtuais muitas vezes revelam percepções que dificilmente aparecem em um formulário corporativo", explica.

O alerta, portanto, não é para que as empresas abandonem as entrevistas de desligamento, mas para que deixem de tratá-las como um retrato fiel da cultura. "Todo formulário carrega consigo um risco de ter dados sem compreender a cultura e a história. A saída passa por uma postura mais autocrítica das organizações e, principalmente, de seus líderes".

Em vez de esperar que a verdade apareça quando alguém deixa a empresa, é preciso criar mecanismos permanentes de escuta, diagnóstico e desenvolvimento cultural. Nascimento acentua que "a gente, como líderes de empresas, precisa contar com a própria franqueza e humildade para entender se as nossas empresas precisam de choque e desenvolvimento cultural para continuarem vivas e relevantes no mercado".

Para Nascimento, a principal mudança é deixar de acreditar que o desligamento funciona como uma espécie de momento definitivo da verdade. Ele compara essa postura à tradição romana de lembrar aos generais vitoriosos que eram mortais, com a expressão "Memento Moris". As nossas organizações precisam de alguém que nos lembre constantemente de olhar para dentro.

"Mais do que esperar pelas "memórias póstumas" de quem já saiu, a cultura precisa ser observada enquanto está viva, nas relações, nas decisões, nos comportamentos das lideranças e na experiência cotidiana de quem ainda veste o crachá", finaliza.

Vídeo completo no link.

Compartilhe

DINO Agência de Notícias Corporativas

Agência de notícias corporativas. Conteúdos publicados em rede de parceiros online. Na lista de parceiros estão grandes portais, como os casos do Terra, do Metrópoles e do iG. Agência Estado e Agência O Globo também fazem parte desse time, assim como mais de uma centena de sites e blogs espalhados país afora.

Fale com um especialista
Fale com um especialista