OPINIÃO

Gilmar Fubá e uma história do jornalismo esportivo – por Nelson Nunes

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Gilmar Fubá em atuação pelo Corinthians | Imagem: Arquivo/Divulgação

Ex-editor-chefe do Diário Popular lembra de como o apelido “Fubá” surgiu a partir de reportagem produzida pela publicação ao contar a história do agora saudoso ex-jogador que conquistou o mundo pelo Corinthians

É dolorosamente triste a notícia da súbita morte de Gilmar Fubá, ex-volante do Corinthians integrante do time que chegou ao título do primeiro campeonato mundial conquistado pelo clube. Ele morreu muito jovem, 45 anos, vítima de câncer. Durante muitos anos foi personagem fulgurante na cobertura que o Diário Popular fazia na época, final dos anos 90.

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A editoria de esportes, liderada por Arnaldo Branco Filho, era uma referência no mercado; e o caderno diário, leitura obrigatória no meio esportivo, fosse nos clubes e nas redações de rádio e TV. O inesquecível repórter José Batista era o setorista titular do jornal no dia a dia do Timão (naquela época ainda não havia a proibição de usar os apelidos dos clubes, o que virou uma regra esdrúxula quando o jornal passou para o comando de um executivo da Infoglobo que tinha fixação em fazer do velho Dipo um concorrente direto de Folha e Estadão…mas essa eh outra historia, conto depois!).

Repórter experiente, sagaz, criativo, Zé Batista procurava sempre cumprir o pedido da chefia de ir além daquela coisa chata e previsível do dia a dia dos treinamentos, buscando novos ângulos para uma cobertura tradicionalmente repetitiva. Pois foi por causa de sua proximidade com o volante Gilmar, na época ainda um menino recém-promovido do “terrão”, que Batista fez uma das matérias mais saborosas e de grande repercussão de sua longa carreira no jornal da Major Quedinho.

“Até meio ingenuamente, Gilmar revelou ao repórter que acreditava ter ficado forte na infância porque a mãe compensava a falta de fartura de alimentos na despensa de casa com uma mamadeira de leite turbinada com farinha de fubá mimoso”

A pedido da pauta, Batista tentava descobrir os segredos da força física do novo craque e viu que a resposta para o enigma não estava no clube, nem no campo, nem na sala de preparação física do Parque São Jorge, mas sim na casa do atleta. Até meio ingenuamente, Gilmar revelou ao repórter que acreditava ter ficado forte na infância porque a mãe compensava a falta de fartura de alimentos na despensa de casa com uma mamadeira de leite turbinada com farinha de fubá mimoso. Foi com a força proteica daquele mingau, acrescida ao amor da mãe, que o menino pobre da periferia ganhou músculos, fôlego e força incomuns.

Batista, esperto como sempre, sabia que já tinha a matéria na mão, mas era insaciável na missão de fazer a coisa certa. Para sua história ficar perfeita faltava uma imagem arrebatadora. E eis que o velho repórter, na lábia dos bons, convenceu Gilmar a ir até sua casa e pedir para a mãe fazer uma mamadeira de fubá, como fazia no passado. Ela só não fez como ensinou o passo a passo da receita e, diante das lentes do fotógrafo (não consigo lembrar qual deles estava nessa pauta, arriscaria dizer que era o Manuel Motta, que duplava frequentemente com o Batista) pegou no colo seu menino (na verdade, aquele homenzarrão que botava medo em qualquer adversário), aninhando-o como um bebê indefeso, e lhe serviu a poção redentora no bico da mamadeira.

“No dia seguinte, com foto na capa e manchete em letra graúda, o menino Gilmar virou Gilmar Fubá para sempre – até a eternidade”

Gilmar entrou no clima, fechou os olhinhos e sorveu o líquido milagroso com ternura. No dia seguinte, com foto na capa e manchete em letra graúda, o menino Gilmar virou Gilmar Fubá para sempre – até a eternidade. Emérito contador de causos dos bastidores do futebol, Gilmar costumava lembrar de uma história que quase complicou sua vida e de sua mãe por causa dessa matéria. Dias depois da publicação chegou lá no clube uma senhora querendo falar com o craque. Pela cara de brava, ela vinha em missão de paz. Parecia enfurecida e se aproximou do jogador com a delicadeza de quem dá um carrinho por trás, no tornozelo do inimigo.

– Você é o tal Gilmar Fubá?, perguntou a senhora.

– Sim, sou eu. Tudo bem com a senhora?, retrucou gentilmente o volante, todo solícito, achando que a mulher estava ali atrás de uma foto e um autógrafo do novo namoradinho da Fiel.

– Tudo bem o escambau! – reagiu a dona. – Vim aqui pra dizer na sua cara que você é um tremendo mentiroso!!!

Àquela altura, Gilmar já não sabia o que dizer, surpreendido pela invertida.

– Você é mentiroso e sua mãe também! – insistiu a senhora nervosa.

– Por que a senhora está dizendo isso? – perguntou o craque.

– Por que essa história de mamadeira de fubá pra ficar forte é uma puta enganação. Peguei a receita que sua mãe deu no Diário Popular, fiz pro meu filho e o menino está cagando mole há uma semana…uma puta disenteria!

De longe, observando o diálogo, o repórter Zé Batista sorriu intimamente e saiu de fininho de cena. Ou melhor, como ele mesmo dizia quando ia embora da redação, “escorregou”. Nesta semana, muitos anos depois, Gilmar Fubá foi ao encontro de Batista no outro plano. Que eles possam se divertir com essa doce lembrança quando se cruzarem por lá. Fiquem na paz, queridos!

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Por Nelson Nunes, jornalista. Ex-editor-chefe do Diário Popular/Diário de S. Paulo e atual integrante do projeto A Capa.

Texto publicado originalmente no perfil do autor no Facebook.