OPINIÃO

A neura do follow up – por Patrícia Paixão

follow up

“Sinceramente, quando você força o seu estagiário a fazer follow up para o mesmo jornalista toda hora você o coloca na posição daqueles vendedores chatos”

Não é a primeira, nem a segunda, tampouco a terceira vez que um estudante de jornalismo me procura em aula para lamentar o fato de estar estagiando em uma assessoria de imprensa. Ele não curtiu o serviço e acha que se daria melhor trabalhando em uma redação? Não, nada disso! O problema é que ele é obrigado a passar todas as horas do seu expediente fazendo APENAS follow up. Pior! É obrigado a ligar para o mesmo jornalista TODOS OS DIAS, e às vezes até DUAS VEZES POR DIA!

Se eu mesma não tivesse passado por isso (quando fui estagiária de algumas assessorias de imprensa), diria que esses alunos estão exagerando ou fantasiando. Mas sim, isso acontece. Aconteceu comigo há mais de 18 anos e, infelizmente, continua acontecendo.

Me pergunto: será que esses assessores (que fazem tal exigência de seus estagiários) passaram algum dia por uma redação?

Meu Deus! É óbvio que nenhum jornalista de redação, por mais legal e paciente que seja, vai gostar de receber ligações todo dia de um assessor insistindo com uma pauta. Ele vai criar uma antipatia, logo de cara, por esse assessor de imprensa e por essa empresa de assessoria.

Não estou dizendo que o follow up não é necessário. É importante sim. Quando trabalhava no IG e na Agência Folha como repórter eu recebia centenas de e-mails em um dia e nem sempre dava conta da informação que estava em todos. É legal, sim, que o assessor ligue e nos alerte sobre a importância de determinada pauta. Mas, se você me ligou hoje, pra que ligar amanhã de novo? Dê um tempo, não sufoque o jornalista. Sinceramente, quando você força o seu estagiário a fazer follow up para o mesmo jornalista toda hora você o coloca na posição daqueles vendedores chatos, que nenhum cliente quer ver na frente.

Uma das qualidades da boa assessoria de imprensa é construir relacionamentos sadios e duradouros com os jornalistas, e não se tornarem irritantes e inconvenientes.

Isso sem contar o mal aproveitamento do estagiário, que poderia estar aprendendo a atuar com estratégia, ligando nos momentos em que verdadeiramente uma conversa com o jornalista vale a pena; poderia estar aprendendo a construir um bom press-release; a conseguir encontrar fatos no cliente, que sejam de interesse público, para atrair a atenção dos jornalistas; dentre outras ações que realmente valem a pena.

Sinceramente, acho que precisamos de uma “clínica de recuperação para assessores viciados em follow up”. Esses coleguinhas acabam fazendo com que nossos estudantes de jornalismo peguem birra da área de assessoria de imprensa, que é tão importante e tão rica.

Que em 2018 os assessores de imprensa possam atuar com mais inteligência e menos neurose. Amém!

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