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Por que as rádios ignoraram as Olimpíadas?

Por que as rádios ignoraram as Olimpíadas
Imagem: iStock

Luiz André Ferreira comenta a cobertura dos Jogos Olímpicos nas emissoras de rádio

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Com o advento dos jogos de Tóquio ficou ainda mais evidente que, embora grande parte das rádios tenham o seu setor de esportes, na verdade, o nome deveria ser outro. O correto seria chamar –se departamento de futebol. Isso porque praticamente é somente essa a modalidade esportiva coberta, tanto no acompanhamento através de reportagens do cotidiano como nas transmissões dos eventos.

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E a bola rola independente do porte da empresa. Desde as pequenas até as gigantes. Também não importa nicho. Seja de comunicadores, all News, religiosas, musicais… Também perpassa todos os estilos: sertanejo, adulto contemporâneo, samba/pagode, rock, pop… Não importa. O futebol está lá presente na programação.

É claro que, essa paixão nacional encontra também forte ressonância no departamento comercial. Praticamente não faltam patrocinadores para as cotas deste segmento. Fora que também geram significativos índices de audiência, tanto nas transmissões dos jogos como nos programas de debates e jornalísticos que acompanham esse esporte e ocupam grande espaço nas grades de programação. Tanto que boa parte das emissoras mantém setoristas nos principais clubes de suas regiões.

Por que com a TV e a internet, muitos preferem o rádio?

Muita gente me pergunta porque, mesmo com opções midiáticas mais completas, modernas e interativas, uma multidão ainda prefere acompanhar as transmissões pelas ondas radiofônicas. Na cultura midiática brasileira é muito comum o espectador ver as partidas pela TV com o som em mute enquanto ouve o áudio de uma rádio.

Se formos analisar esse fenômeno, existem 3 justificativas culturais e emotivas que justificam esse comportamento até os dias de hoje.

  • Afinidade histórica: A paixão pelo futebol e a transformação deste como “o esporte brasileiro”, teve o rádio como seu grande motivador. A ditadura Getúlio Vargas precisava criar e unificar identidades num país de dimensões continentais. Fez isso com o investimento na elevação do samba (campo musical), o humor (nas chanchadas cinematográficas) nas Revistas (formato teatral) e no futebol (na área esportiva) como gêneros de identidade brasileira em seus e respectivos segmentos. E a política de investimento não permitia diversidade. O foco era cada um para determinada área, sem espaço para duplicidades. E foi justamente através do rádio que essa divulgação maciça foi feita, principalmente através do monopólio de audiência da Rádio Nacional, emissora estatal estratégica controlada com mãos de ferro pelo Governo Federal
  • Rádio nos campos: Registramos o aumento do tamanho dos estádios nacionais, tendo o gigante Maracanã como símbolo do maior do mundo. Isso coincidiu com a evolução dos transístores e a pilha, que possibilitaram a difusão dos radinhos portáteis nos anos 50. Com isso, os torcedores passaram a ocupar as distantes arquibancadas, cadeiras e gerais (espaços em que assistiam em pé) acompanhados de seu inseparável radinho de pilha. Através dos aparelhinhos podiam obter informações, acompanhar narrações e descrições do que não conseguiam detectar a olho nu. Isso gerou um inconsciente afetivo presente até os dias de hoje.
  • Locutores mais vibrantes: Isso é fato! Os narradores de rádio são muito mais empolgantes do que os da televisão. E isso acontece até quando o mesmo profissional migra de um meio para outro. Parece que perde o ânimo. Mas essa sensação não se deve somente ao ritmo animado da narração. Na TV, o espectador assiste de forma passiva, restando ao apresentador apenas a função de complementar o que o torcedor também está vendo instantaneamente junto com ele. Já no rádio, pela ausência da imagem, o público acaba usando de sua cognição e conhecimentos prévios, para formar, em sua imaginação, a cena narrada pelo comunicador. Sendo assim, participa de forma ativa no processo da transmissão.

A velha Jovem Pan já foi a emissora de todos os esportes

Mas nem sempre foi assim. A Jovem Pan, que tem seu nome de batismo como Panamericana, surgiu justamente com a proposta de acompanhar todos os esportes, com transmissões de modalidades variadas e presença de comentaristas e especialistas em vários segmentos. Aos poucos, foram desaparecendo do dial e o futebol assumindo a supremacia.

Entusiasmado com o sucesso da Bandnews FM, o grupo lançou, em 2012, a sua rede de rádio com programação 100% focada no esporte, abrindo para outras modalidades além do futebol. Apesar de levar no nome o banco patrocinador e sua linha do tempo coincidir com as realizações em nosso território da Copa do Mundo no Brasil e as Olimpíadas no Rio, o projeto nunca decolou conforme as expectativas. Encerrou, melancolicamente, as atividades em 2017.

Aposta nos cavalos

O turfe também encontrou, no passado, um pequeno espaço no dial brasileiro. Praticamente cada grande centro tinha a sua estação oficial das corridas de cavalo. Eram quase sempre mantidas pelo Jockey Clube, como forma de expandir seus negócios à distância, através de casas específicas e lotéricas, que também faziam as apostas remotamente. Tanto que, com o início dos canais de TV específicos e o avanço da internet, desapareceram as transmissões de turfe nas rádios brasileiras.

Corridas de Automóveis

Devido ao grande valor publicitário envolvido, a Jovem Pan ainda manteve por mais tempo as corridas de automóveis, comandada pelo Wilson Fittipaldi, conhecido como “o Barão”, pai do famoso corredor.

Detentora da Fórmula 1, a família Saad estendia a transmissão das provas para a matriz do grupo, a Rádio Bandeirantes de São Paulo. O mesmo fez a Globo no tempo em que manteve os diretos, ampliando a cobertura para seu braço radiofônico. Com o recente movimento de retorno da F1 para o grupo paulista, o ronco dos motores voltou a ecoar na tradicional Rádio Bandeirantes e na novata Bandnews.

Mas verdade seja dita. Embora as campanhas tentassem repetir o incentivo ao hábito de assistir pela TV e ouvir pelo rádio, a Fórmula 1 nunca teve a mesma ressonância que o futebol. Está presente nas programações muito mais pela força comercial envolvendo o evento do que pelo interesse do ouvinte.

Rádios não percebem aumento do interesse por outros esportes

Não estariam sendo os dirigentes de rádio acomodados e conservadores e, por isso perdendo uma oportunidade de aproveitarem o apelo das olimpíadas e o visível interesse de público por outros esportes e o crescimento publicitário?

Como termômetro podemos observar que, mesmo com impacto do fuso-horário japonês (com as partidas acontecendo de madrugada), esta edição está se destacando pelo grande interesse e torcida do brasileiro. Fenômeno este que, associado a flexibilidade do home office (com muitos trabalhando de casa) está garantido audiências recordes para as madrugadas. Isso tanto na Rede Globo – com exclusividade na TV aberta, como para as emissoras fechadas SportTV (do mesmo grupo) e a BandSports.

Mesmo não obtendo os direitos, não impede que demais redes de TV estejam se beneficiando indiretamente com abertura de espaço jornalístico e flashes durante as programações através de materiais de agência ou envio de correspondentes próprios ao Japão.

Isso sem falar dos jornais impressos, agências, portais e sites que também estão se beneficiando desse interesse do público e dos patrocinadores. Além disso, registramos milhares de postagens por segundo invadindo freneticamente as time-lines e as acaloradas discussões interativas nas mídias sociais.

E tem ainda a surfada nas olimpíadas de milhares de marcas que criam, incessantemente, conteúdos associando sua imagem aos atletas, público, evento e partidas das Olimpíadas. Não poderiam eles também estarem estendendo esses anúncios para as rádios?

Até por terem um custo de produção imensamente mais baixo, serem mais ágeis e muito mais simples operacionalmente, não estariam os as rádios perdendo uma oportunidade de se reposicionarem no concorrido mercado midiático e publicitário? Com raríssimas exceções, poucas estações abriram, mesmo que pequenos e modestos espaços, para a cobertura das olimpíadas. E assim, as oportunidades passam…

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Julia Renó

Jornalista, 23 anos. Natural de São José dos Campos (SP), onde vive atualmente, após temporadas em Campo Grande (MS). Formada pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (MS) e voluntária da ONG Fraternidade sem Fronteiras, integra o time de jornalistas do Grupo Comunique-se desde julho de 2020.

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