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Ah, é guerra? — por Marli Gonçalves

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(Imagem: Canva)

“Pandemia, mortes; guerra, mortes; violência, mortes; usinas nucleares em chamas, o mundo todo envolto em dramas”

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É muita coisa junta atraindo, merecendo e roubando a nossa atenção. Pandemia, mortes; guerra, mortes; violência, mortes; usinas nucleares em chamas, o mundo todo envolto em dramas, pó, chamas. Gente chata. Busca por sobrevivência. Me diz: quanto tempo você está conseguindo ficar pensando só em sua própria vida? Planejando qualquer coisa? Como se concentrar sem ser egoísta?

Um dia após o outro, com calma. Respire fundo. Tenha pensamentos positivos. Concentre-se. Reze, reze muito. Apegue-se ao presente. Não será por falta de conselhos, mesmo que alguns sejam praticamente inexequíveis nesta altura dos acontecimentos.

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Não teremos mesmo muitas outras opções, pelo menos não nos próximos dias, talvez meses, e que não se permita que essa agonia prossiga por anos. O ar irrespirável da guerra, mesmo que lá a mais de 11 mil quilômetros de distância, nos tira o fôlego, e especialmente o tempo de pensar em nossas próprias vidas, problemas e soluções.

Por aqui, os dias do Carnaval, que já não estava aquela beleza, ficaram muito piores ainda com os ecos da invasão russa à Ucrânia, não bastassem os gritos de perigo da pandemia, seu vírus e suas cepas continuamente renovadas. Nos últimos anos aqui em São Paulo, o Carnaval tinha virado uma temporada de alegria, com diversão, blocos na rua — as pessoas nem mais viajavam tanto, abandonando a cidade, abarrotando estradas — e agora já vimos tudo isso de novo. Como se todos que pudessem sair, corressem para algum lugar onde pudessem relaxar, esquecer, ouvir o canto de pássaros, mergulhar com peixinhos. A cidade aqui ficou uma tristeza só. E olha que em 2021 já tinha sido punk, mas agora somou-se pandemia e a guerra lá, com ecos por aqui, e que já nos aperta e morde os tornozelos.

Quem não se sente perdido nesse mar de bombas, fake news, autoritarismo, oportunismo ideológico?

É uma guerra não contida só em suas fronteiras. É uma guerra que envolve os brasileiros, seja por estarem lá, ou por perto, ou no todo ameaçado continente europeu — e isso é muita gente, contando seja com familiares, ou mesmo nossos amigos — tanta gente que havia se pinicado daqui em busca de futuro. Para completar, a política errática do desgoverno Bolsonaro, que não sabe se vai ou se fica, se pula ou corre, e que abraça, para nossa tristeza, o lado dos ditadores. Não, não vou deixar de criticar uma inacreditável parte da esquerda nacional ainda capaz de vomitar tantas sandices, abanando o rabo russo, como se esse lhe coubesse em um caso tão claro de violação de direitos humanos e espalhamento de terror.

Quem não se sente perdido nesse mar de bombas, fake news, autoritarismo, oportunismo ideológico e de outras nações, violações, alarmes tocando dia e noite, mais um êxodo migratório gigantesco e desconfortável?

Tudo isso em 2022, logo já em seu início. Ano que se já não era simples para nós, piorou, quando aguardamos ansiosos uma eleição ainda indecifrável, com lista de candidatos pouco atrativos e nessa grudenta divisão que nos assola há anos, limitante e emburrecedora, capaz de nos por aqui, também, em uma guerra particular.

Acabo entendendo a apatia em que nos encontramos. E exageram

Ah, não quero ouvir falar de guerra! Ah, não quero saber de números da pandemia! Ah, não quero saber de noticiário! — Tenho ouvido tanto isso, que acabo entendendo a apatia em que nos encontramos. E exageram.

Para vocês terem uma ideia, acreditem ou não, ouvi da gerência da academia que frequento — a mocinha foi capaz de dizer aos meus ouvidos que a terra há de comer, como se diz — que as tevês estavam ligadas em canais de esporte por causa do “ambiente esportivo”. O que passava quando reclamei, coisa que parece as pessoas esqueceram como é, submetendo-se silentes a tudo, e era de manhãzinha? Das cinco tevês, três sintonizavam uma mesma e sangrenta luta de boxe; as outras duas, comentaristas sportvianos sentados nas suas mesinhas, e visto em tevês claro que sem som. As boquinhas se mexendo.

(…e eu só queria ver o mar, por exemplo, nas ondinhas das surfistas do canal Off, ou uma Ana Maria Braga com suas receitas deliciosas, um desenhinho animado, uma previsão de tempo…).

A guerra não é aqui. Mas vai sempre ter alguém ou algo bombardeando nosso mais que valioso momento reflexão.

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Marli Gonçalves

Jornalista formada pela FAAP, em 1979. Diretora da Brickmann&Associados Comunicação, B&A. Tem 40 anos de atuação na profissão, com passagens por vários veículos, entre eles Jornal da Tarde, Rádio Eldorado e revista Veja. Na B&A, além de assessoria de imprensa e consultoria de comunicação, especializou-se em gerenciamento de crises, ao lado de Carlos Brickmann, com quem trabalha desde 1996. Também é editora do Chumbo Gordo, site de informações da B&A. Mantém, ainda, o blog particular Marli Gonçalves (http://marligo.wordpress.com). Desde 2008, escreve semanalmente artigos e crônicas para inúmeros jornais e sites de todo o país sobre comportamento, feminismo, liberdade e imprensa. Entre suas atividades na área de consultoria, comunicação empresarial e relações públicas foi de 1994 a 1996 gerente de imprensa da multinacional AAB, Hill and Knowlton do Brasil (Grupo Standard, Ogilvy & Mather). Participou de várias publicações e veículos, entre eles, Singular & Plural, Revista Especial, Gallery Around (com Antonio Bivar), Jornal da Feira, Novidades Fotóptica, A-Z, Vogue. Na área política, foi assessora de Almino Affonso, quando vice-governador de São Paulo, e trabalhou em várias campanhas, entre elas, de Fernando Gabeira e Roberto Tripoli.

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