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Esse novo (anormal e perigoso) mundo aí fora

Esse novo (anormal e perigoso) mundo aí fora
Imagem: iStock

Tem um novo mundo aí fora, mas ele está muito estranho. Ensaiamos os primeiros passos, de longe parece até a tal normalidade do que lembrávamos que ocorria antes dessa desgraça que afetou o planeta

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Vou falar: ando mesmo tendo muita dificuldade de lidar naturalmente com tantas coisas juntas que vêm ocorrendo no mundo, dia após dia e, continuamente, sem solução, soterradas por outras, dia após dia. Vão ficando pelo caminho – talvez um dia saibamos o final dessas histórias todas, e até sejam punidos os malfeitores, quem sabe, mas ainda duvido. É avalanche, porque aumentam de volume quanto mais se aproxima o final por nós tão esperado dessa novela distópica em que estamos metidos.

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Passado mais de um ano e meio, todos os dias somos assombrados, tantos pesadelos atormentando nosso sono, agora os encontramos ao vivo, e pressentimos que esse encontro coletivo é forte, perigoso e abala ainda mais nossos sentimentos já tão massacrados por perdas, e de tudo. Pessoas queridas arrastando sequelas não contabilizadas e, portanto, desassistidas. Bate um desespero de poder ajudar pouco, e ainda ver os que poderiam nada fazer; ao contrário, passam por cima, sentindo-se ainda mais fortes e poderosos.

Outro dia um senhor, segurança de rua que trabalha há muitos anos aqui perto, de repente me chamou para perguntar de onde é que consigo tirar ânimo para estar, como ele disse, “sempre simpática, cumprimentando todo mundo, transmitindo imensa energia positiva”, como definiu, me olhando direto nos olhos. Juro: me disse ainda que irradio luz, e que pareço estar sempre feliz. Ah, quem dera!

Pouco ando por aí se não estou legal, e se não estou legal ninguém tem nada a ver com isso – não transfiro esse ônus.

Eu passava carregando minhas minguadas sacolinhas de compra de mercado, meio desconsolada porque acabara de ver mais aumentos absurdos nos produtos básicos, além de ter batido o olho nas manchetes de todos os jornais expostos na banca próxima. Surpresa, perguntei o porquê e ele apenas me descreveu algumas cenas do cotidiano que durante horas enfrenta diariamente.

Fiquei muito contente, envaidecida, claro, ganhei o dia, mas aquilo não me saiu da cabeça e cheguei à conclusão do quanto ao menos disfarço bem minhas angústias. Isso, de alguma forma, todo o tempo. E é cansativo, embora, juro, espontâneo. Pouco ando por aí se não estou legal, e se não estou legal ninguém tem nada a ver com isso – não transfiro esse ônus.

Mas não é o que acontece e nesse momento está mais forte a agressividade nas ruas, o medo escancarado da violência – outro dia mesmo um arrastão causou a morte de um jovem empresário a dois quarteirões daqui. O encontro com gente ruim.

Avançam tentando trazer de volta com outra roupagem todo o horror já vivido na História, inclusive o horror do nazismo

Nos detalhes que presencio os sinais são fortes. Estão cada dia mais sendo revelados – e fazendo questão de fazerem isso, o que é pior – diante de nós pessoas e pensamentos inacreditáveis, vindos desse vento ruim do bolsonarismo e assemelhados, um tempo conservador, armado, violento, que divide conosco o mesmo espaço, espalhando o negacionismo com seus atos, imperiosos, espalhando mentiras, desrespeitando regras, não usando máscaras, se colocando contra vacinas, contra a imprensa, integrando essa realidade absurda que desrespeita os vivos e, como agora estamos sabendo, também os mortos, submetidos que foram, como cobaias, a misteriosos experimentos assassinos, forjados e ilegais.

Agridem a Ciência, o conhecimento, a cultura, o bom senso, a liberdade, as conquistas de gênero e raciais; avançam tentando trazer de volta com outra roupagem todo o horror já vivido na História, inclusive o horror do nazismo, o que me faz até não entender porque os povos que já foram tão vítimas desses tempos não estarem ainda se organizando para evitar essa volta disfarçada de patriotismo com outras pinceladas.

Tudo o que presenciamos é muito maior do que o visível. É preciso nomear, sem retoques, e antes que seja tarde demais.

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Marli Gonçalves

Jornalista formada pela FAAP, em 1979. Diretora da Brickmann&Associados Comunicação, B&A. Tem 40 anos de atuação na profissão, com passagens por vários veículos, entre eles Jornal da Tarde, Rádio Eldorado e revista Veja. Na B&A, além de assessoria de imprensa e consultoria de comunicação, especializou-se em gerenciamento de crises, ao lado de Carlos Brickmann, com quem trabalha desde 1996. Também é editora do Chumbo Gordo, site de informações da B&A. Mantém, ainda, o blog particular Marli Gonçalves (http://marligo.wordpress.com). Desde 2008, escreve semanalmente artigos e crônicas para inúmeros jornais e sites de todo o país sobre comportamento, feminismo, liberdade e imprensa. Entre suas atividades na área de consultoria, comunicação empresarial e relações públicas foi de 1994 a 1996 gerente de imprensa da multinacional AAB, Hill and Knowlton do Brasil (Grupo Standard, Ogilvy & Mather). Participou de várias publicações e veículos, entre eles, Singular & Plural, Revista Especial, Gallery Around (com Antonio Bivar), Jornal da Feira, Novidades Fotóptica, A-Z, Vogue. Na área política, foi assessora de Almino Affonso, quando vice-governador de São Paulo, e trabalhou em várias campanhas, entre elas, de Fernando Gabeira e Roberto Tripoli.

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