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Gil Giardelli: “estamos criando castas tecnológicas”

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O professor Gil Giardelli (Imagem: reprodução)

Um dos principais estudiosos brasileiros sobre o futuro, Gil Giardelli, é otimista, mas expõe os maiores problemas da nova era mundial. Ele, que é comentarista da BandNews FM, demonstra preocupação com a presença de castas tecnológicas

Em 2017, Gil Giardelli tornou-se membro da World Futures Studies Federation (WFSF), ONG dedicada a estudar o futuro e pensar soluções para o planeta. É o segundo brasileiro no grupo que aconselha a Unesco. Conhecido como o maior especialista em cultura digital do país, tem um intenso trabalho com robótica, é web ativista, vencedor de diversos prêmios internacionais na área de inovação e tecnologia e colunista na BandNews FM. A entrevista foi feita após encerrar uma partida de futebol de salão com os amigos em um clube no centro de São Paulo. Apesar de o grande envolvimento com as máquinas, se esforça para ter tempo com as pessoas. “O melhor do ser humano é quando a gente conversa, bate um papo, se encontra na vida real”. Aos 43 anos, ele se propõe a discutir os grandes problemas que desafiam o planeta Terra.

Qual a importância da tecnologia no dia a dia? Vem aumentando?

Na verdade, nós estamos entrando em uma nova era da humanidade. Vou citar um professor antigo que foi futurista (Alvin Toffler). Ele disse que o analfabeto do século XXI não seria aquele que não soubesse ler e escrever, seria aquele que não soubesse aprender, desaprender e reaprender quase todo dia. Nós estamos em um momento de mudança de era onde tudo que a gente aprendeu e construiu como sociedade está sendo colocado em cheque. E nisso que alguns estão chamando de a quarta revolução industrial, mas eu acho que é algo muito mais profundo, estão sendo colocadas muitas coisas em discussão.

Por exemplo o fim do estado-nação, diversas ameaças à democracia, a predominância da inteligência artificial, que vai criar muitos empregos e tirar muitos outros. Acho que a ideia não é discutir a importância da tecnologia, mas como nós podemos nos aproveitar disso como humanidade para gerar mais igualdade, fraternidade e lealdade. Hoje, nós estamos criando castas tecnológicas, daqueles que tem acesso a grandes tecnologias e já podem sequenciar seu DNA e viver mais de 100 anos e de outros que vão morrer de febre amarela por ingerência, incompetência ou corrupção de quem não tem pensamento de futuro.

Qual dessas mudanças e discussões será a mais impactante na vida do cidadão?

Estamos discutindo até se esse conceito de brasileiro, americano, italiano e japonês vai fazer sentido no mundo atual. É só onde tem igualdade que existe democracia. Isso em qualquer lugar do mundo. Quando têm pessoas que dominam tecnologia e que começam a fazer um sufocamento da educação dos outros, você começa a criar o que a gente chama de totalitarismo digital. Aí começa a existir uma predominância muito grande e essa desigualdade desenfreada em que vivemos.

Vamos pegar o que talvez seja o próximo trilionário do mundo, tudo indica que será o Bill Gates. Ele fez agora um manifesto perguntando por que o mundo precisa de mais um trilionário. Eu não prego o comunismo ou o socialismo, quem trabalha mais tem que ganhar mais, mas nós precisamos ter um mundo mais igual. Essa revolução do fim das fronteiras é uma consequência do fim do estado-nação. E por quê? A maioria das palavras que nós usamos em 2018 são palavras que ou nasceram ou criaram muita força entre a revolução francesa e a primeira revolução industrial. Se a gente já está na quarta, então está na hora de se repensar. Qual o papel do governo? Qual o papel das escolas? Qual papel do trabalho? Tudo isso está sendo colocado. Nós precisamos de novos modelos, novos mapas.

Esse fim do estado-nação é diretamente uma consequência da tecnologia? Quando vai acontecer?

O Brasil é o único país entre as maiores economias do mundo que não tem um lugar onde se faz estratégia de pensamento de futuro. Nós temos dois think tanks aqui em destaque. Um da Fundação Getúlio Vargas, mas a FGV pensa no sentido de economia, de inflação, e outro é o Instituto Fernando Henrique Cardoso. Por ele ser uma pessoa ligada a um grupo político e estar vivo, muito do que eles discutem não consegue virar um pensamento. Mas o que eu quero dizer com isso?

Em 1939, os Estados Unidos foi o primeiro país a montar uma área que, independente do governo, da linha, se vai ser esquerda ou direita, estava ligada a pensar o futuro. E esse grupo montou lá atrás o que foi chamado de soft power na diplomacia. Eles queriam trazer o mundo na dominação de dois processos, o strong power, que é poderio bélico, e o soft power, que seria algo entre arte, Hollywood e ciência, e definiram o que está acontecendo hoje. Se você ver o mundo de patentes, a IBM pelo 25º ano consecutivo é a empresa que trouxe mais patentes para a história.

No Brasil, nós estamos sem pensamento de futuro. Aí a gente vai ter que ter uma discussão muito séria e honesta de qual é o nosso projeto como nação inovadora. Eu sou uma pessoa muito otimista, mas temos que discutir alguns pontos sobre como o país vai se acertar. Aqueles empregos que estão acabando por causa da tecnologia, para cada um surgem três novos. Só que esses três novos exigem muito pensamento crítico, muita empatia, conhecer a ciência, matemática. O Brasil precisa repensar esse processo.

Como?

Algumas discussões nós teremos que ter, mas no Brasil está passando um trem supersônico na nossa frente e ainda estão discutindo se vão caminhar de sandálias. O mundo inteiro está se voltando por novas energias renováveis, aí o Brasil quer estender a cobrança dos royalties para a energia solar. Estamos sempre na contramão. A Alemanha já colocou todas as principais definições de como vai funcionar o carro sem motorista. Nós temos que discutir. Se você estiver em um carro sem motorista e ocorre um acidente: a culpa é sua, é de quem fabricou o carro, de quem fabricou o software da inteligência artificial? As discussões são essas.

Os especialistas dizem que os acidentes reduzirão em 99 por cento. Mas vão acontecer e a máquina precisará ter um processo de pensamento. Por exemplo, sem saída, se tiver que decidir entre atropelar um idoso ou uma criança, quem ela escolhe? Nós estamos no meio de dilemas de uma nova ética. Só que enquanto o mundo está enfrentando essas discussões, a gente só proíbe e proíbe.

E qual o contexto da robótica nisso tudo?

O primeiro robô foi da Ford na década de 1950. A robotização da indústria e de várias carreiras vai acontecer. Trabalhos manuais, que não exigem intelecto humano, vão ser feitos por máquinas. A concepção de um carro será feita por um humano, um designer, mas para a montagem você não vai precisar mais de operários. Isso já está acontecendo no Brasil. Se você for na fábrica da BMW em Santa Catarina, são pouquíssimos profissionais, é tudo robotizado.

Onde está sobrando emprego? Em pessoas que pensam estratégias, em designers, etc. Nós vamos ter que mudar nosso modelo mental de trabalho. Se todo mundo que está na fase de trabalhar estivesse trabalhando, a gente só trabalharia 12 horas por semana. O resto seria o que estão chamando de Atenas Digital, que é voltar a ler mais, estudar mais, discutir coisas mais profundas. É esse pensamento que devemos ter.

Então você acredita que uma das soluções para os problemas atuais é criar as 12 horas de trabalho?

Não. Isso tudo é geracional. Infelizmente nós vamos ter algumas gerações que vão viver de uma forma muito difícil no mundo inteiro nas próximas décadas, porque eles fizeram parte de um tipo de educação que cresceu muito na primeira revolução industrial, feita para produzir operários. É uma educação que nasceu em Marraquexe no século II, foi massificada em Bolonha no século XIV e ganhou muita força na Inglaterra.

A geração Y ainda está vivendo uma recorrência disso?

Está. Hoje, no mundo, de cada três jovens, dois vivem pior que seus familiares. São dados oficiais. Todo mundo tem carro, mas olha o que está acontecendo nas cidades. Ter um carro não significa que você prosperou. Por isso, temos que repensar também novos modelos de cidade. Por exemplo, a mancha urbana que existe entre São Paulo e Rio de Janeiro, se olhar hoje, é quase uma megalópole. Com o passar do tempo, até 2050, isso vai crescer de uma forma gigantesca, vai ser uma cidade só. Enquanto a Inglaterra está fazendo uma parceria com a China para um trem direto e muito rápido de ligação, aqui estão fazendo o quê? Então quais são as atitudes para resolver isso?

Primeiro, educação de alto impacto. Não significa que você tem que se inscrever agora em uma escola. Está tudo aberto na internet. Você pode estudar hoje com um Prêmio Nobel gratuitamente se quiser. Não sabe falar inglês? Use os tradutores ou alguém vai traduzir para você voluntariamente. Outra coisa, procurar trabalhos que te geram proposito. Aquele trabalho só pelo salário vai virar commodity. E outro ponto é, as nações que vão prosperar, são aquelas que conseguirem criar igualdade, que a corrupção diminua muito e a impunidade não prevaleça.

Você está falando dos países nórdicos?

Todos. Vou dar um exemplo bárbaro. A França e a Inglaterra sempre foram muito similares. E eu estive no ano passado lá a trabalho. Você vê que enquanto a Inglaterra está prosperando, enriquecendo, a França está em um processo de empobrecimento, porque teve problemas com algo que nós latinos somos muito coniventes: a corrupção, a demonização do ganhar dinheiro, que vem da Igreja Católica, e a demonização da meritocracia. Isso está criando problemas.

Agora, corrupção e pobreza existem. Qual o papel da tecnologia para melhorar essa situação?

Vamos pegar as moedas digitais. Bitcoin, Ethereum, KodakCoin e grandes empresas fazendo suas moedas próprias. Isso volta ao fim do estado-nação. Mas o que já está acontecendo? A Cruz Vermelha está sempre sendo acusada de não usar bem o dinheiro destinado a ajudar países que sofreram algum problema. Olha um caso específico no terremoto do Haiti. Em 2011, eles receberam dinheiro para construir quase 600 mil casas. Não construíram nem um por cento disso. Qual a desculpa? De que o dinheiro recebido se perdeu na corrupção e na burocracia.

A partir de agora, os investidores ou doadores estão usando plataforma de blockchen. Já não tem mais como dizer “foi para lá, não foi para cá”, porque está tudo rastreado. É o registro da internet. A tecnologia vai trazer essa transparência radical, o fim da intermediação e um momento em que tudo que a gente pensou como mundo, como os conceitos de ONU, Unesco, Banco Mundial, estado-nação, deverá se modernizar. Ainda não está se modernizando, vai ter pressão.

Grande parte das soluções passa pela transparência?

Pela transparência radical. Hoje, absolutamente tudo está na internet. Mas nós temos que educar e capacitar as pessoas para aprenderem a ler esses dados. O dado é o novo petróleo do século XXI e quem souber lê-los terá uma vantagem muito grande. Vamos pegar o que aconteceu nos últimos dias. Goldman Sachs não tinha prejuízo desde os anos 2000 e teve no ano passado, Nestlé vende sua área de chocolates para a Ferrero Rocher, uma Kodak aumenta 120 por cento suas ações porque lançou uma moeda criptografada… Então é um novo capitalismo e a gente vai ter que rever essa nova ordem mundial. Os pilares disso são: pensamento estratégico de futuro, educação de alto impacto e transparência radical. Não existe segredo a ser guardado mais.

Vai existir um momento em que grande parte da população mundial vai estar capacitada para usar bem a internet?

Tem vários fatores que confluem para uma inovação, como aconteceu na Coreia do Sul. Nós estamos vivendo um momento muito antagonista no Brasil. Estamos muito desunidos e isso não é bom. A academia tem que se unir com a iniciativa privada e com iniciativas públicas boas. Tem que haver um impacto de união. O que vivemos hoje é algo talvez até similar a uma guerra civil de uma forma diferente, digital.

Você está falando de esquerda e direita.

Esquerda e direita não cabe mais. Nos Estados Unidos, lá em 1800 e alguma coisa, as pessoas votavam em quem pensava como elas as vezes durante toda a vida. Aí cabia ser conservador, liberal, ser esquerda e direita. Hoje as opiniões mudam muito rápido e não porque as pessoas são demagogas, mas porque o mundo não precisa desse conceito fechado de sou isso ou sou aquilo. Ora eu posso ser mais liberal, ora conservador, ora ter pensamentos de esquerda, ora de direita.

Mas as redes sociais, em vez de ampliar visões, não pode estar gerando extremistas?

O que estamos vivendo no Brasil é o que chamamos de uma grande infância digital. E nesse conceito estamos nos comportando como meninas e meninos mimados dentro de uma sala de aula. Se dividindo entre o pessoal da esquerda e o pessoal da direita, da rua de cima e da rua de baixo. O que alguns países estão fazendo sobre isso? Já começam a ter uma educação de o que é o mundo digital e seus impactos desde criança, onde você vai entender o que é fake news, com quem você pode conversar.

Lembra que sua mãe falava para não aceitar nada de estranhos na rua? E aqui nesse meio tempo não deu para a gente fazer um manual de boas maneiras (digitais). Mas eu sou um técnico otimista de que em algum momento a gente vai evoluir como sociedade e perceber que esses antagonismos e essa forma que nós estamos lidando já não faz parte do século XXI.

Você é educador e comunicador, atinge milhares de pessoas. Esse processo passa pela mídia?

Eu digo sempre, para cada um que está sendo acordado antes das 6 da manhã pela Polícia Federal, têm milhares de pessoas acordando voluntariamente para fazer coisas bacanas. O problema é que a gente está tão atolado em notícias ruis que não está dando tempo de contar as boas. Mas tem tantas boas acontecendo no Brasil que eu posso te enunciar centenas. Está faltando autoestima para nós, temos uma síndrome de vira-lata, estamos com aquele carimbo de nação de corruptos. Eu acho que chegou a hora de a gente contar e celebrar as coisas boas.

Conte duas…

O Brasil é o primeiro país do mundo a fazer produção de energia feita no Morro da Mineira, Rio de Janeiro. Foi um projeto de um pesquisador da Shell que fez isso como voluntário, onde enquanto as pessoas vão trabalhar, jogar bola, caminhar, estão produzindo com seus passos energia para ser consumida na comunidade. Isso foi feito aqui, só que quase ninguém sabe.

Outro exemplo é o UbatubaSat. Uma escola pública em Ubatuba, no litoral paulista, estava tendo uma grande evasão de estudantes, perdendo alunos para o tráfico de drogas e gravidez precoce. O professor foi lá e mudou, fez uma aula de makers, fazedores. Criou uma vaquinha, comprou materiais e falou que o objetivo do ano era construir um nanossatélite. A aula era tão interessante que aqueles alunos que tinham ido embora voltaram, começou a lotar. Depois de seis meses de trabalho esse professor mandou um e-mail para a Nasa usando o Google Tradutor, perguntando se eles poderiam enviar o satélite em volta do planeta Terra.

O Brasil ganhou a maior premiação de educação para adolescentes em ciências exatas do mundo. Os alunos foram para Tóquio receber o prêmio, depois o nanossatélite foi lançado, que mandou a seguinte mensagem de lá: “parabéns escola de Ubatuba, vocês não são a primeira escola do Brasil, mas a primeira escola do mundo a fazer isso.” Quantas pessoas souberam?

A imprensa então tem um papel social que não está sendo cumprido?

Só a última notícia do jornal da TV é boa. É uma hora, sendo 58 minutos de notícia ruim. E tem muita coisa acontecendo no mundo que te traz esperança.

O que o cidadão comum pode fazer?

A gente celebra muito que nós somos o segundo país no mundo que mais usa a internet. Mas eu acho que é muito nas redes sociais. Você pode ficar no Facebook vendo seus amigos. Você pode ficar no WhatsApp, mas separe 15 minutos para ver uma aula com tradução de um professor que ganhou um Prêmio Nobel. Será que 15 minutos por dia vão fazer falta? E outra coisa, se você ler 20 páginas por dia, que não é nada, no final do ano leu mais de 20 livros. Um livro bom acrescenta muito para criar o seu pensamento nessa nova era.

Quando vamos ter robôs humanoides do nosso lado, como no filme do Robin Williams (O Homem Bicentenário)?

Já está muito próximo. Só depende de regulamentação. A Sophia é uma humanoide de inteligência artificial. Ela consegue fazer metade das mudanças de expressões faciais de um humano, estar brava, triste. A Arábia Saudita deu a cidadania para essa robô porque eles estão vivendo uma mudança na economia, que está saindo do petróleo para entrar na inovação, e quem anunciava tudo isso era ela. Com isso começou toda uma discussão por ela não usar o véu. Recentemente, Sophia foi dar uma entrevista e fez ao repórter um questionamento sobre o motivo de na Arábia Saudita as mulheres não terem todos os direitos que ela tem. Hoje, na Inglaterra você já pode comprar algo próximo de uma Sophia. É caro, o preço de um carro, mas já faz parte da nossa vida. Em cinco anos isso vai baratear demais. A discussão é quais são os limites éticos e jurídicos disso tudo.

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Por David Nascimento, em especial para o Portal Comunique-se.

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