COMUNICAÇÃO OPINIÃO

Globo e SBT comparam anarquistas a neonazistas

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'Fantástico' exibiu reportagem sobre anarquistas (Imagem: Reprodução/TV Globo)

Anarquistas: SBT e Globo protagonizam um episódio lamentável de deseducação e desinformação política ao tratar de acusados presos pela polícia de Porto Alegre

Os grupos anarquistas Pandorga e Parrhesia foram alvos de mandados de prisão pela polícia do Rio Grande do Sul. A operação policial foi tema de reportagens do SBT, que abordou o tema em um de seus telejornais, e da TV Globo, que exibiu conteúdo por meio de sua revista eletrônica dominical, o ‘Fantástico’.

Os dois programas televisivos espalharam o analfabetismo político a respeito do anarquismo e se focaram nos crimes de depredação do patrimônio público. Nenhum dos dois ressaltou que, na mesma época em que ocorreram depredações de viaturas policiais, PMs foram vistos agredindo sem razão judicial manifestantes pela redução das passagens de transporte público. A questão, levada nacionalmente pelo Movimento Passe Livre (MPL), resultou em violência policial inclusive em São Paulo, gerando as chamadas “Jornadas de Junho de 2013”.

As emissoras televisivas emplacaram a imagem de que anarquismo é extremismo e vandalismo. Mas será que é isso mesmo?

O caso do SBT

O jornalista Thiago Zahreddine, integrante da emissora de Silvio Santos, compara o anarquismo com o neonazismo. Afirma, de maneira resumida, que anarquistas seriam uma espécie de “extrema-esquerda autoritária” ou “vândala”. A dedução do repórter não poderia estar mais equivocada, considerando que a anarquia tem viés antiautoritário.

O pré-anarquismo remonta o século 6 no taoísmo oriental (pensamento de Laozi) e chegaram com força durante a Renascença Francesa e a Revolução. O teórico russo Mikhail Alexandrovich Bakunin reforçara o ideário no século 19 e se opôs às outras vertentes de esquerda, que reforçaram o autoritarismo presente, sobretudo, na União Soviética.

Nem todo anarquismo é pró-ação direta ou violenta contra propriedades. No entanto, a maioria das vertentes tem em comum a luta contra o patriarcado (feminismo), contra os abusos do capitalismo, pela democracia direta e pelo fim da propriedade privada.

Nenhum destes elementos está presente na reportagem do SBT, que visa estigmatizar a ideologia, como se ela fosse o fato de ligação entre os ataques no Rio Grande do Sul.

O caso do ‘Fantástico’ na Globo

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(Imagem: Reprodução/TV Globo)

Numa falsa tentativa de parecer imparcial, a Globo ouviu os professores de Direito Walter Maierovitch (pró-polícia e legalista) e André Luís Callegari (que tenta explicar o que é anarquismo). No entanto, a seleção de imagens revela que o ‘Fantástico’ toma partido dos policiais e não critica de forma alguma o comportamento da organização diante de anarquistas em protestos pela redução das passagens.

É uma reportagem falsamente isenta.

Possível conclusão | Sobre anarquistas

Anarquismo é uma ideologia que, você concorde ou não, contribui para uma crítica correta da esquerda e da democracia. Neonazismo – e o nazismo, e o fascismo – é uma ideia retrógrada que traz de volta uma ideologia totalitarista dos séculos 19 e 20.

Não confunda as coisas e não confie em uma mídia que coloca ambos em simetria.

Este é o caso do SBT e da Globo.

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Texto publicado originalmente no site TopBuzz.

SOBRE O AUTOR

Pedro Zambarda

Pedro Zambarda

Jornalista e escritor. Teve experiência na Editora Abril (EXAME.com) e Globo.com (TechTudo). Atualmente, é editor dos projetos DigiClub, Drops de Jogos e Geração Gamer, além de ser colunista da rede social Storia e repórter do site Diário do Centro do Mundo (DCM).

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