OPINIÃO

Dez anos sem Joel Silveira: textos e lições de um dos grande repórter

Joel Silveira - o víbora - abraji - reprodução
(Imagem: Reprodução/Abraji/Youtube)

Só tive a oportunidade de conhecê-lo depois da faculdade e lamento muito por isso. Não quero cometer injustiças aqui, mas durante os quatro anos da graduação nenhum professor, que eu me lembre, falou sobre Joel Silveira. E, se falou, certamente não foi com a ênfase necessária para apresentar aquele que, sem dúvida, foi um dos melhores repórteres que esse país já teve.

Hoje, como docente do curso de Jornalismo, tenho uma missão: ressaltar a todo estudante que passe por mim a importância da biografia e da obra de Joel.

Nesta semana, no dia 15 de agosto, completam-se dez anos da sua partida. Na próxima semana, no dia 22, completa-se um ano que o maior seguidor de Joel, o jornalista Geneton Moraes Neto, outro repórter do “Top Ten Patrícia Paixão” (rs), nos deixou.  Amigo de Joel, tendo escrito obras com ele, e diretor do documentário “Garrafas ao mar – A víbora manda lembranças” (sobre a trajetória do jornalista), Geneton certamente faria alguma homenagem a seu mestre nessa efeméride de dez anos. Na entrevista que eu e minhas alunas Daniela Gualassi e Jéssica Tamyres dos Santos realizamos com ele para o livro “Mestres da Reportagem” (In House, 2012), fez questão de enfatizar a influência de Joel Silveira no seu “fazer jornalístico”.

Por isso, em tributo a esses dois “musos” inspiradores, resolvi escrever esse texto. E que eles possam apreciá-lo de onde estiverem.

Joel Silveira nasceu em Sergipe, em 23 de setembro de 1918. Começou a trabalhar como jornalista aos 14 anos no jornal “A Voz do Operário”, uma publicação voltada aos trabalhadores de uma fábrica de tecido de Aracaju.  Ganhou destaque na área no Rio de Janeiro, onde chegou em 1937, aos 19 anos.

Dono de um texto refinado, engenhoso e extremamente preciso, capaz de descrever muito bem a situação retratada, envolvendo e emocionando o leitor, Joel Silveira é considerado um dos primeiros jornalistas literários brasileiros. Escreveu matérias que são verdadeiras obras de arte, num período em que o new journalism (novo jornalismo – corrente de vanguarda surgida no jornalismo norte-americano nos anos 60, que emprega recursos da literatura no texto) ainda não havia desabrochado. Era um exímio observador dos fatos e tinha grande sensibilidade, para retratá-los de maneira sedutora.

Como definiu muito bem um dos meus poetas favoritos, Manuel Bandeira: “O texto do Joel é maciamente perfurante, como uma punhalada que só dói quando esfria”.

Uma de suas reportagens de maior repercussão foi publicada na revista “Diretrizes”, de Samuel Wainer.  Joel passou um tempo frequentando os eventos das famílias quatrocentonas de São Paulo. Observou bem seus costumes, suas manias, seus trejeitos. A ideia da pauta surgiu a partir de uma conversa que o jornalista teve com o pintor modernista Di Cavalcanti, seu amigo. O artista tinha acabado de voltar de Paris e comentou com Joel que não estava sendo bem aceito pela grã-finagem paulistana, que era muito fechada, rejeitando o ingresso de pessoas que não pertenciam àquele mundo. Joel achou que aquilo rendia uma reportagem e começou suas incursões naquele universo, disfarçado como gentleman. Foi assim que nasceu o texto intitulado “1943: Eram assim os grã-finos em São Paulo”, que descreve, com ironia e detalhes, toda futilidade de parte da elite paulistana daquele período. Por conta do estilo ácido e ferino, ganhou de Assis Chateaubriand, dono da maior rede de comunicação da época (os Diários Associados, responsável pela introdução da TV no Brasil), o apelido de “víbora”, e foi convidado para trabalhar com ele. “Os rapazes se vestem muito bem e telefonam. Telefonam de cinco em cinco minutos e conversam com Lili, com Fifi, com Lelé. Recebem também telefonemas de Fifi, de Lili e de Lelé. (…)”, relata Joel, em um dos trechos sarcásticos da matéria.

Em 1945, já trabalhando para Chateaubriand, foi escalado para cobrir o casamento de Filly, filha do industrial Francisco Matarazzo, com João Lage, em São Paulo. Mas havia um pequeno-grande detalhe na história: Joel não havia sido convidado para aquela cerimônia que agitava a sociedade paulistana.  Foi então que teve a ideia de conversar com pessoas que tinham participado do evento, para saber tudo o que tinha acontecido nele. Assim foi gerada “A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista”, publicada em O Jornal (impresso pertencente aos Diários Associados). Segundo Ruy Castro, em coluna escrita para a Folha de S.Paulo em 2013, “Joel fez a mesma coisa que Talese [Gay Talese – um dos pais do new journalism], só que 20 anos antes, sendo que a diferença entre seu texto e o de Talese é que o de Joel é melhor”.

Ele escreveu reportagens sensacionais sobre encontros que teve com presidentes brasileiros. A minha predileta é sobre sua tentativa de entrevista com Getúlio Vargas. Lourival Fontes, que era então chefe da Casa Civil da Presidência, conseguiu agendar o encontro de Joel com Vargas, mas, assim que o jornalista mostrou seu papel com as questões que iria fazer, o clima, que era amistoso e repleto de gentilezas, mudou: “(…) Na fisionomia louçã e sorridente começava agora a se estampar o terrível desastre. Os olhos de Sua Excelência incendiaram num segundo; uma nuvem sombria, de um cinzento bilioso, escondeu o róseo das faces; a mão pequena repeliu a folha de papel como se quisesse afastar para o mais distante possível algo extremamente repugnante; e a voz mansa se encrespou, tornou-se rascante, fria como gelo, dura e fria como gelo; e dura e fria e cortante me bateu no rosto e nos ouvidos com toda a fúria de uma incontida chicotada. Sem me olhar, Getúlio me disse, quase sibilante: O senhor deixe o papel com o dr. Lourival. Ele lhe telefonará depois. E o homenzinho levantou-se, esmagou no cinzeiro de cristal o que restava do charuto, e desapareceu por uma porta ao lado, que bateu com força. Nem ao menos me estirou a mão. Apenas a chicotada, e como doeu! E como ainda dói (…)”.

Joel ainda se destacou na cobertura de conflitos internacionais. Cobriu, ao lado de Rubem Braga, a II Guerra Mundial para os Diários Associados. Acompanhou a campanha dos pracinhas da Força Expedicionária Brasileira (FEB), na Itália. Segundo relatou em entrevista décadas depois (em um minidocumentário sobre ele, feito pela Abraji – Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), a ida para a guerra teria sido um castigo que Chateaubriand lhe aplicou, por conta de uma reportagem, repleta de ironias e acidez, que ele fez sobre o Clube das Vitórias Régias, um grupo de senhoras de meia idade, que gastava seu vultoso dinheiro em reuniões sociais e atividades artísticas, e eram todas fascistas. Uma dessas senhoras era Rosalina Coelho Lisboa, muito amiga de Chateaubriand. Isso irritou muito o dono dos Diários Associados, que decidiu dar um corretivo em Joel: “O senhor vai matar alemão, Senhor Silveira! Só te peço um favor: o Senhor vá, mas não me morra!”.

É também de um conflito internacional que nasceu o texto que, na minha opinião, é um dos mais lindos da história do jornalismo no Brasil e no mundo: a cobertura que Joel fez do Bogotazo, revolta popular, marcada por uma série de protestos, ocorrida após o assassinato do líder liberal e candidato a presidente Jorge Eliécer Gaitán, em 9 de abril de 1948, no centro de Bogotá, na Colômbia. No trecho a seguir, o repórter fala sobre o corpo de um menino que ele encontrou no Cemitério Central de Bogotá. RESPIRE FUNDO E LEIA COM MUITA ATENÇÃO ESSE TRECHO. TENTE NÃO SE EMOCIONAR. DUVIDO QUE CONSIGA:

(…) Ainda na manhã do dia 10 de abril, um sábado, estive no Cemitério Central de Bogotá, em afazer de repórter, para ter uma idéia aproximada do saldo de mortos deixado pela explosão popular. Os cadáveres… Eram muitos e feios; e ali estavam, enfileirados em todas as aléias do cemitério, numa arrumação de sucessivos dormitórios coletivos. Nunca, em toda a minha vida, nem mesmo nos meses de guerra, estive diante de mortos tão mortos. A maioria fora imobilizada em pleno furor da rebelião. E daí, talvez, o ríctus que se via na face macerada de quase todos, como se estivessem com raiva de ter morrido.  Somente aquele menino (não mais de oito anos) morrera cândido, de olhos abertos, um começo de sorriso nos lábios. Os olhos vazios fixavam o céu de chumbo, e as mãos de unhas sujas e compridas pendiam sobre a laje dura – como os remos inertes de uma pequeno barco. O barco fora surpreendido pela tempestade, havia perdido o leme, mas ficara boiando sobre as águas, sem afundar. Foi a impressão que me deu aquele menino: a impressão de que não havia morrido de todo. (…) Tal a presença de vida que vinha daquele pequeno corpo imobilizado, que cheguei a passar a palma da mão sobre a boca rígida, na esperança talvez de descobrir que ele ainda estava vivo. Não estava. Apenas não havia chegado a compreender direito o que de fato acontecera. “Que frio é este?”, perguntavam os lábios gelados. “E por que tanta escuridão?”, indagavam os olhos duramente abertos. Tranquilo e ingênuo, o sorriso respondia que ele, menino, não devia ter medo, pois logo a luz e o calor voltariam, da mesma maneira como, após a chuva e a noite, o sol volta sempre. Depois um funcionário qualquer aproximou-se, olhou por alguns segundos o menino morto, procurou sem achar alguma coisa que ele deveria trazer nos bolsos. Tentou em seguida fechar com os dedos os olhos abertos, mas não conseguiu. Abertos e limpos, os olhos do menino morto pareciam maravilhados com o que somente eles viam, com o que queriam ver para sempre.”

Autor de mais de 40 obras e vencedor de diversos prêmios, como Líbero Badaró, Esso Especial, Jabuti e Golfinho de Ouro, Joel também se destaca por ter sido um grande defensor da função de repórter. Excelente frasista, proferiu declarações que hoje são verdadeiros mantras para todos que amam a reportagem. Segundo ele: “Se houvesse justiça no mundo, os nomes dos repórteres deveriam vir sempre acima dos nomes dos donos do jornal.” Também disse que “qualquer atividade jornalística que não seja reportagem é um grande desperdício de tempo e energia” e que “nada mais triste do que ver um repórter sentado na redação a olhar para o teclado, disponível e sem assunto, quando os assuntos, todos eles, estão lá fora enchendo as ruas.”

Deixou várias lições sobre esse ofício, mostrando que a reportagem demanda eterna disposição e perseverança. De acordo com ele: “repórter de verdade é aquele que, na cama de um hospital, não se esquece de contar o número de aviões avistados no céu”. Também disse que “repórter que não é chato não é repórter”.

Por essas e outras, Joel Silveira é um exemplo para todos que amam o jornalismo. “Tempo de contar” (Record, 1985), “A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista” (Companhia das Letras, 2003) e “O inverno na Guerra” (Objetiva, 2005) são algumas das obras nas quais você pode conferir na íntegra as reportagens aqui mencionadas. Se você ainda não conhece bem esse gênio da nossa reportagem, corra atrás desses livros o quanto antes. Sempre há tempo, como houve para mim. Garanto que você ficará ainda mais apaixonado pela nossa profissão.

#JoelSilveiraEterno

SOBRE O AUTOR

Patrícia Paixão

Jornalista e professora do curso de jornalismo na Universidade Presbiteriana Mackenzie e na Universidade Anhembi Morumbi. É responsável pela página Formando Focas (www.formandofocas.com), voltada a estudantes da área, e organizadora dos livros “Jornalismo Policial: histórias de quem faz” e “Mestres da Reportagem”. É mestre em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo e doutoranda do Programa de Integração em América Latina da Universidade de São Paulo.

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