OPINIÃO

Por que escrevemos “por que” de tantas formas diferentes – Por Edson de Oliveira

por que

Os revisores da última reforma ortográfica da língua portuguesa, que entrou em vigor no Brasil em 2009, perderam uma boa oportunidade de acabar com uma das maiores dúvidas dos falantes do português: a grafia correta do encontro entre as palavras “por”, preposição indicativa de causa, e “que”, conjunção que apresenta a oração em sua forma desenvolvida, isto é, com o verbo no modo finito (indicativo, subjuntivo e imperativo).

Consoante os gramáticos, ambas as palavras deverão ser escritas juntas quando introduzirem ORAÇÕES CAUSAIS, quer sejam estas COORDENADAS SINDÉTICAS EXPLICATIVAS, quer sejam SUBORDINADAS ADVERBIAIS, as quais se diferenciam uma da outra pela vírgula:

“Os alunos obtiveram um mau resultado, PORQUE NÃO ESTUDARAM”,
“Os alunos obtiveram um mau resultado PORQUE NÃO ESTUDARAM”,

“Acho que choveu ontem, PORQUE O CHÃO ESTÁ MOLHADO”,
“Acho que choveu ontem PORQUE O CHÃO ESTÁ MOLHADO”,

“Dorme muito pouco, PORQUE TRABALHA DEMAIS”,
“Dorme muito pouco PORQUE TRABALHA DEMAIS”,

“Ele tem dinheiro, PORQUE COMPROU UM CARRO NOVO”,
“Ele tem dinheiro PORQUE COMPROU UM CARRO NOVO”,

“O pai já está deitado, PORQUE AS LUZES ESTÃO APAGADAS,
“O pai já está deitado PORQUE AS LUZES ESTÃO APAGADAS,

“Aplaudiram o orador, PORQUE O DISCURSO FOI BRILHANTE”,
“Aplaudiram o orador PORQUE O DISCURSO FOI BRILHANTE”,

“Sobe, PORQUE TE QUERO MOSTRAR UNS LIVROS”,
“Sobe PORQUE TE QUERO MOSTRAR UNS LIVROS”,

“Come a sopa toda, PORQUE ESTÁ MUITO BOA”,
“Come a sopa toda PORQUE ESTÁ MUITO BOA”,

“Ela não foi à escola, PORQUE QUERIA IR À FESTA” (não foi),
“Ela não foi à escola PORQUE QUERIA IR À FESTA” (foi, mas por outra razão),

“Marta não comprou o vestido, PORQUE ERA MUITO CARO” (não comprou),
“Marta não comprou o vestido PORQUE ERA MUITO CARO” (comprou, mas por outra razão),

“Não tenhais medo, PORQUE O MUNDO NÃO ACABA AGORA” (não tenhais medo),
“Não tenhais medo PORQUE O MUNDO NÃO ACABA AGORA” (tenhais medo, mas por outra razão);

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juntas e com acento quando estiverem SUBSTANTIVADAS:

“Ninguém entende o PORQUÊ de tanta confusão”,
“Existem muitos PORQUÊS para justificar esta atitude”,
“Meus PORQUÊS só eu entendo”,
“Este PORQUÊ tem de ser grifado”,
“Ela sempre vem com PORQUÊS”;

e separadas e com acento quando aparecerem no fim da frase:

“A jornalista perguntou POR QUÊ”,
“Você entende POR QUÊ?”,
“Adivinhe POR QUÊ”,
“Parou POR QUÊ?”,
“POR QUÊ?”.

O problema é que, ao juntarem ambas as partículas, os gramáticos acabaram não só criando outra palavra – a conjunção “porque” –, mas também contrariando a regra (inventada por eles mesmos) que manda acentuar as oxítonas terminadas em “e”, como “você”, ou seja, os professores que mandam e desmandam em nossa caótica ortografia deixaram a nova palavra com cara de paroxítona, como “corte”, “forte”, “morte”, “norte”, “porte”, “sorte”, “torne” etc., e pronúncia de oxítona.

Na verdade, eles até acentuaram a forma “porque”, mas apenas quando esta está substantivada (“porquê”), como se a sílaba tônica da conjunção não a fosse a mesma do substantivo.

Se, ao pensarem em fazer como fizeram outros idiomas (por exemplo, o inglês pergunta com “why” – por que – e responde com “because” – porque), os gramáticos queriam dificultar um pouco mais a vida de quem escreve em português, conseguiram quando nos obrigaram a acentuar a forma separada no fim da frase, como se o acento de uma palavra dependesse de sua localização.

Os responsáveis pelo trabalho de Sísifo que foi a empreitada de reformar a ortografia do português teriam simplificado a escrita do encontro das polivalentes palavrinhas “por” e “que” nos três casos vistos acima se tivessem deixado ambas as partículas do jeito como elas nasceram, separadas e sem acento, como fizeram nas ORAÇÕES SUBORDINADAS SUBSTANTIVAS:

“Imagine POR QUE FUI CONVIDADO”,
“Adivinhe POR QUE NÃO CURTO ESTA MÚSICA”,
“Descobri POR QUE A LUZ ESTAVA APAGADA”,
“Você entende POR QUE FUI DORMIR CEDO?”,
“Ninguém disse POR QUE ELA PERDEU O CONTROLE”,
“A jornalista perguntou POR QUE AS OBRAS AINDA NÃO HAVIAM COMEÇADO”,
“Veja POR QUE A MAIORIA DOS BRASILEIROS NÃO GOSTA DE LER”,
“O aluno sabe POR QUE NÃO APRENDEU”,
“O cantor explicou POR QUE A GENTE SOMOS INÚTIL”,
“Isso mostra POR QUE O BRASIL NÃO É UM PAÍS SÉRIO”,
“Torço POR QUE MELHORE”,
“O Parlamento Europeu zela POR QUE A SUA ATIVIDADE GOZE DE UM ELEVADO NÍVEL DE VISIBILIDADE”,
“Os alunos anseiam POR QUE CHEGUEM AS FÉRIAS”,
“Ele estava ansioso POR QUE O ÔNIBUS NÃO DEMORASSE”,
“Ela estava aflita POR QUE A LUA DE MEL TERMINASSE LOGO”,

e nas SUBORDINADAS ADJETIVAS:

“Só eu sei as esquinas POR QUE PASSEI”,
“Dormi no avião POR QUE FUI AO RIO”,
“O dinheiro POR QUE VENDI A CASA acabou”,
“Todos sabemos os direitos POR QUE LUTAMOS”,
“Ciúme foi o motivo POR QUE ELES BRIGARAM”,
“Não sei a razão POR QUE DISCUTIMOS O ASSUNTO”,

nestas últimas, com a preposição “por” ligada à regência indireta do verbo da oração subordinada e a palavra “que” funcionando como pronome relativo (equivalente a “o qual”, “a qual” e seus respectivos plurais) do substantivo antecedente da oração principal.

Como se vê, diferentemente do que a escola ensina, as quatro formas de escrever o encontro entre a preposição “por” e a conjunção “que”, partícula esta que se evapora quando o verbo apresentado por ela vai para o infinitivo (“Os alunos obtiveram um mau resultado POR NÃO ESTUDAREM”), não têm nada a ver com a relação, principalmente de causa, estabelecida pela preposição “por”, é apenas uma invenção sem pé nem cabeça com que os gramáticos acabaram dificultando a vida de quem não domina a norma culta.