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Redações devem automatizar projetos de checagem

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Imagem: Divulgação

Rumos do chamado fact checking no jornalismo foram discutidos no International Symposium on Online Journalism (ISOJ). Evento foi realizado na última semana

Uma ideia que permeou a conferência deste ano do International Symposium on Online Journalism (ISOJ) é que a automação no jornalismo não é mais uma coisa do futuro. Ela está aqui e funcionando neste momento, declarou o moderador e apresentador Bill Adair em 12 de abril.

Assim, em vez de temer as mudanças que possam surgir neste desenvolvimento, o painel “Automação e o futuro do fact checking” explorou as possibilidades que a tecnologia tem sobre um dos desafios mais cruciais do jornalismo atual: verificar a veracidade dos políticos.

Adair, o Professor Knight de Jornalismo e Políticas Públicas da Duke University, captou esse espírito para dar início às apresentações: “Eu conheci nossos mestres robôs — eles são legais!

Pablo Fernández, da plataforma de fact-checking Chequeado, na Argentina, começou com uma simples verdade que muitos meios de comunicação ainda estão lutando para entender: “Não é tão complicado criar esta tecnologia”.

Chequeado é uma organização apartidária, sem fins lucrativos, com a missão de “aumentar o custo de mentir”. O grupo vem experimentando desde 2018 com o Chequeabot, uma ferramenta de fact checking ao vivo que usa conversão automatizada de fala para texto, como a maioria das ferramentas de fact checking. O fact checking em vídeo e televisão constitui a maior parte do seu trabalho.

Tal como acontece com muitas tecnologias desenvolvidas neste setor, o Chequeado também acredita em fornecer ferramentas open source que possam ser utilizadas por terceiros para customização posterior. Para aqueles dispostos a experimentar a versão Beta em que a equipe está trabalhando, Fernández forneceu links em inglês e espanhol.

Sérgio Spagnuolo está envolvido na condução de fact checking automático no Brasil. Não diferente dos Estados Unidos, o Brasil está experimentando uma necessidade crescente de fact checking na mídia após a eleição do presidente populista de direita, Jair Bolsonaro. Para atender a essa demanda, Spagnuolo e sua equipe trabalham com Aos Fatos, uma das maiores plataformas de fact checking do Brasil e o maior jornal do país, Folha de São Paulo. Ele também é editor-chefe da agência de notícias Volt Data Lab e Truthbuzz fellow do Centro Internacional de Jornalistas (ICFJ).

Existem muitas ferramentas automatizadas em uso diário no Brasil, como um bot de monitoramento do Twitter do Bolsonaro, um agregador de fact checking e uma ferramenta de debate ao vivo, e todas elas têm três princípios em comum: são simples, fáceis de usar e replicáveis.

Esses princípios são, segundo Spagnuolo, necessários para desenvolver e distribuir com sucesso novas ferramentas automatizadas.

Outra perspectiva sobre o trabalho de fact checking foi oferecida por Day-young Oh, da Coreia do Sul. Ele lidera uma equipe de verificação de fatos na JTBC, uma das maiores redes de cabo da Coreia do Sul.

A maioria das falsas alegações e notícias falsas que eles precisam verificar resumem-se aos dois campos de opinião centrais na Coreia. “Trata-se de unificar versus dividir a Coreia”, disse Oh. Isso se torna ainda mais claro considerando que a porção de notícias falsas que dizem respeito à Coreia do Norte em 2018 foi de cerca de 45%.

A JTBC experimentou um notável ganho de confiança de sua audiência após a cobertura do impeachment do ex-presidente Park Geun-hye em 2016. A confiança também está intimamente ligada a jornalistas visíveis, como o apresentador de notícias Suk-Hee na JTBC. De acordo com Oh, ele não é apenas um dos homens mais famosos da Coreia, mas também a fonte de notícias mais confiável.

Nos Estados Unidos, a plataforma de fact checking mais conhecida é o PolitiFact. A editora-chefe Katie Sanders provocou uma gargalhada na plateia depois de começar sua apresentação com uma foto dela e de Adair derrapando, no estilo “Velozes e Furiosos”. Adair criou a PolitiFact, vencedor do prêmio Pulitzer.

O PolitiFact tem desenvolvido muitas técnicas usadas internacionalmente hoje em dia, como o seu famoso Truth-o-meter, e tem fomentado muitas afiliações com outros meios de comunicação, apelidado de “o modelo McDonald’s” por Sanders.

No entanto, a PolitiFact está consciente dos desafios que a sua plataforma enfrenta. Os usuários querem respostas mais rápidas e verificação quase instantânea dos fatos no rápido ciclo de notícias de hoje. Mas o processo de checagem do PolitiFact leva pelo menos um a dois dias e contém métodos rigorosos, como a decisão final dos editores sobre um ranking de “Verdadeiro” a “Pants on Fire!”, para mentiras exageradas.

Sanders definiu seus principais desafios da seguinte forma: as avaliações precisam ser concluídas mais rapidamente e mais pessoas precisam ser alcançadas pelo fact checking, especialmente aquelas que mais precisam. O PolitiFact também quer expandir ainda mais a cobertura local.

Mas ao invés de esperar por uma solução de grande tecnologia para resolver seus problemas, Sanders disse que estará trabalhando cada vez mais para inovar sua plataforma. O grupo assinou recentemente vários acordos para aumentar seu alcance, como com o Noticias Telemundo, que traduz as checagens para o espanhol; com o Kaiser Health News para criar uma cobertura mais profunda das questões de saúde e um programa semanal de TV na Newsy chamado “What the fact”.

Adair completou as apresentações com uma discussão sobre uma ferramenta que ele está desenvolvendo chamada Squash (esmagar, em inglês) — “uma metáfora para o que queremos fazer com as mentiras”.

Um teste do Squash durante o último discurso sobre o Estado da União teve um resultado positivo para a ferramenta, que checou ao vivo as afirmações feitas pelo presidente Donald Trump. Adair disse que algumas falhas precisavam ser resolvidas, como a interpretação errônea ocasional de alguns dos comentários de Trump, mas ele estava animado com o futuro da ferramenta. De acordo com as necessidades mais urgentes no fact checking de hoje, Squash vai se concentrar principalmente em vídeo e conteúdo de TV.

Streaming ao vivo do ISOJ em inglês e espanhol pode ser acessado em isoj.org.

Por Valerie Eiseler. Texto publicado originalmente no site do Knight Center for Journalism in the Americas

SOBRE O AUTOR

UT Knight Center

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O Centro Knight para o Jornalismo nas Américas da Universidade do Texas em Austin é um programa de extensão e capacitação profissional para jornalistas na América Latina e no Caribe. Organiza programas de treinamento que já beneficiaram milhares de jornalistas e professores de jornalismo nas Américas. O Centro Knight também ajudou a criar uma nova geração de organizações jornalísticas independentes. Essas organizações têm desenvolvido programas de treinamento auto-sustentáveis com o objetivo de aumentar os níveis éticos e profissionais do jornalismo, contribuindo assim ao aprimoramento da liberdade de imprensa e da democracia no hemisfério. O Knight Center publica um blog trilíngue em português, espanhol e inglês que cobre temas ligados ao jornalismo e à liberdade de imprensa na América Latina e no Caribe.