OPINIÃO

The Intercept descobre “kryptonita” jornalística

Kryptonita - moro - the intercept
(Arte: reprodução/O Defensor)

A pedra fictícia utilizada pelos inimigos para debilitá-lo é a kryptonita, mas o Brasil descobriu essa semana que há um dispositivo mais realístico: o site The Intercept. Portal Comunique-se publica artigo do jornalista Gustavo Girotto

Kryptonita

O Superman é, sem dúvida, o herói mais popular dos quadrinhos. Ele é famoso, particularmente, por seus valores de bondade, justiça e poderes que o tornam virtualmente invencível. A pedra fictícia utilizada pelos inimigos para debilitá-lo é a kryptonita, mas o Brasil descobriu essa semana que há um dispositivo mais realístico: o site The Intercept.

Aos fatos

As relações pouco republicanas do então juiz Sérgio Moro com integrantes da força-tarefa da Lava Jato reveladas em reportagens do The Intercept Brasil, na noite de domingo, colocam dúvidas na conduta da operação. O conteúdo divulgado, aponta que o magistrado orientava o chefe dos procuradores, Deltan Dallagnol (do fundo megalomaníaco e ilegal criado para gerir 2,5 bilhões de reais roubados da Petrobras) em vários pontos relativos ao processo contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – cobrando novas fases, indicando caminhos e fazendo consultas em relação à abertura de gravações sigilosas. As conversas sugerem absoluta parcialidade do membro do poder Judiciário. Detalhe: o MPF não negou a veracidade dos diálogos divulgados e afirmou que seus integrantes foram vítimas de crime.

Contra-ataque

Moro tentou rapidamente minimizar o teor das reportagens. “Muito barulho por conta de publicação por site de supostas mensagens obtidas por meios criminosos de celulares de procuradores da Lava Jato”, escreveu ele no twitter. O aplicativo Telegram, plataforma onde ocorreram as conversas vazadas entre o ministro da Justiça Sergio Moro e procuradores da força-tarefa da Lava-Jato, desmente a suposição em nota: a página oficial do aplicativo alega que o vazamento pode ter sido causado por vírus em celular ou falta de proteção de usuários.

‘In Fux we trust’ (nas entrelinhas)

Anova revelação também mostra o envolvimento de Luiz Fux, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), o mesmo que fez forte campanha para nomear a filha Marianna Fux como desembargadora do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ) pelo então governador Luiz Fernando Pezão (PMDB), via quinto constitucional (sem concurso). Numa das mensagens trocadas com Dallagnol, em abril de 2016, este afirma ter tido conversa reservada com o ministro Fux, que lhe assegurou de maneira ladina um ‘pode contar com comigo para o que der e vier’; e Moro responde em tom de ironia: “In Fux we trust”.

Chute: o complemento adicional deve revelar possíveis tratativas de Fux, no momento em que derrubara a decisão de Lewandowski vetando a entrevista de Lula ao jornal Folha de S.Paulo no período. Lembrando também que Fux decidiu suspender a investigação instaurada pelo Ministério Público do Rio de Janeiro que apurava as movimentações financeiras atípicas de Fabricio Queiroz, ex-assessor do senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL), atendendo de prontidão um pedido feito pelo filho do presidente Jair Bolsonaro.

Jornalismo estratégico

Glenn Greenwald assumiu o protagonismo do tabuleiro. Pautou a imprensa jogando de brancas: o Fantástico noticiou, os três maiores jornais do país (Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo e O Globo) estamparam na capa da primeira página de segunda-feira o conteúdo. O Estadão – rotulado como um veículo de direita – sugeriu em editorial o afastamento de Sérgio Moro. O colega jornalista Carlos Dias avaliou com precisão: “o fato é relevante porque se tratava de um domingo à noite. As redações trabalham com meia equipe nos fins de semana a fim de que parte tenha folga nesses dias.

O esquema funciona bem porque, com exceção de esportes, há poucas notícias. A decisão de dar o conteúdo foi tensa e teve de ser tomada rapidamente. Os grandes jornais fizeram a coisa certa para o bem do seu leitor ao publicar da melhor forma que podiam a notícia exclusiva do Intercept. Ponto para o jornalismo. O Intercept arriscou e se deu bem. Provavelmente, publicou a notícia mais para chamar a atenção da grande imprensa do que a de seus leitores, escolhendo dia e horário em que seus concorrentes de peso teriam pouco tempo para levantar informações adicionais. Ou vendiam como tinham comprado ou ignoravam um dos fatos mais importantes dos últimos meses”.

Caso Moro tem pouco impacto no mercado financeiro

A notícia não provocou grandes impactos no mercado financeiro, que continua apostando na aprovação da reforma da Previdência do governo Bolsonaro. Embora com PIB “flat” este ano, ou seja, próximo a zero, deixando para 2020 as perspectivas de melhora, o mercado acredita que a agenda econômica pode destravar – independente da gravidade dos fatos e áudios – que ainda poderão ser revelados pelo The Intercept Brasil.

Trinca

O ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, é o dono do ativo de popularidade do governo, assim como o ministro da Economia, Paulo Guedes, é o porto seguro do mercado financeiro. Uma das colunas agora começou a trincar: Aferição do instituto Atlas Pesquisa realizada depois do início da início da divulgação da Vaza Jato mostra que a popularidade de Sérgio Moro começara a despencar. A primeira onda de divulgação do site Intercept aconteceu no fim da tarde do domingo; a pesquisa, realizada entre segunda e quarta-feira (12), constatou: Moro perdeu quase 10 pontos percentuais em sua avaliação positiva.

Por fim, os fins

A evidente colaboração entre Sergio Moro e Deltan Dallagnol deveria ser suficiente para jogar ao menos um ponto de interrogação nas cabeças dos defensores da dupla. Ao invés disso, uma grande parte da população apoia a transgressão com uma simples afirmação: ‘eu faria o mesmo, era preciso’. O recado passado por Sérgio Moro, – de que ninguém mais estaria acima da lei, mesmo um ex-presidente da República, por enquanto ainda não se adapta ao ex-juiz paladino da moral e dos bons costumes.

É compreensível o sentimento de condescendência ao médico que transgredi o plano de saúde para salvar um paciente com câncer, mas desde que ele não aceite o cargo de Ministro da Saúde como moeda de troca – negociado antes mesmo do procedimento cirúrgico concluído com sucesso. Para Moro, pelo caminhar dos fatos, algumas possibilidades ganham ascendência: renúncia e a perda da tão sonhada vaga no STF – além de profligar seu grande projeto pessoal: a presidência da República. Mas no Brasil tudo é possível, inclusive quando a arquibancada aclama: “Moro, Moro, Moro”…

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Por Gustavo Girotto. Jornalista natural de Taquaritinga (SP). Artigo publicado originalmente no site do jornal O Defensor.

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