OPINIÃO

Um homem do mercado – por Heródoto Barbeiro

homem - mercado - artigo

Mais uma vez esse maldito déficit fiscal. O governo gasta mais do que arrecada. Isto, ao longo do tempo, formou uma verdadeira bola de neve, denominada de dívida pública. A arrecadação de impostos deveria ser suficiente para bancar os gastos do Estado, mas estes aumentam sistematicamente, e um dirigente passa o déficit para o outro. Este por sua vez se esforça para equilibrar o orçamento, e às vezes, não intencionalmente, contribui para aumentar ainda mais a dívida. Ele não consegue resistir ás pressões dos poderosos e que dominam grande parte da economia especialmente, bancos, comércio e agricultura. São privilegiados, consideram isso um direito divino, que o gestor tem que satisfazer, quer queira quer não. Assim, os gastos do Estado não param de aumentar e um dos responsáveis é a quantidade de apaniguados pendurados nos salários bancados pelos impostos. Uma imensa burocracia privilegiada, vitalícia e improdutiva que contribuí para agravar ainda mais a situação financeira. O desfecho era previsível, uma hora os financiadores da dívida do Estado iriam suspeitar de uma crise maior, suspenderiam os empréstimos e o país iria quebrar.

A elite financeira está sempre de olho na relação da dívida com a capacidade do Estado pagar pelo menos os juros. A situação nacional evolui para um tal rombo que não há dinheiro nem para pagar os juros, quanto mais as parcelas da dívida. Todo ano o tesouro apresenta déficit e mais uma vez o Estado é obrigado a se socorrer de empréstimos dos endinheirados convencidos por taxas de juros cada vez maiores e que agravam ainda mais o déficit. Na outra ponta está a arrecadação.  Ninguém quer pagar impostos. Alguns setores ganham do Estado isenção tributária sob o pretexto de poder fazer frente à concorrência dos importados e gerar empregos.  Os pagadores de impostos fogem como podem. Uns simplesmente sonegam. Outros conseguem leis privilegiadas. Outros ainda confessam a dívida, mas esperam por descontos generosos para quita-las. Uma ciranda que privilegia os rentistas e agrava a situação da população que não tem como escapar dos impostos. A crise vivida é muito mais de ordem financeira do que econômica.

O pais acumulou uma dívida vultosa e sua renda é insuficiente para pagar os juros e a inchada máquina estatal. Há a necessidade da escolha de um ministro da economia que seja pragmático, mas que ao mesmo tempo seja terno e flexível. Um daqueles homens que falam com o mercado e são os fiadores da dívida perante os bancos. A tentativa de reorganização da dívida é a colocação no mercado de títulos da dívida pública, cada vez mais desacreditados. Os financiadores, contudo, estão de olho na questão política, para onde vai o pais e se há algum risco do ministro articular um calote no mercado. Ninguém dorme sossegado. A única saída possível é a assembleia, contar com os deputados para a aprovação de leis que acabem com os privilégios e crie novos impostos. Há uma reação forte no centrão sob o pretexto que a carga tributária é alta, o povo não pode pagar, e que é necessário cortar na carne, desengordurar a estrutura do Estado dos parasitas e diminuir os gastos. A realeza e a nobreza reagiram e forçaram a demissão do ministro Necker. Ele não conseguiu fazer os milagres que o rei Luís XVI esperava. O terceiro estado liderado pela burguesia tomou conta da Assembleia Nacional e redigiu uma constituição para transformar a monarquia absolutista. A reação da nobreza foi o estopim para o início da revolução que mudou o rumo político da humanidade.

SOBRE O AUTOR

Heródoto Barbeiro

Heródoto Barbeiro

Apresentador e editor-chefe do ‘Jornal da Record News’. Já foi professor de história, carreira que seguiu por quase 20 anos. Na imprensa, passou por CBN, Rádio Globo, Jovem Pan, TV Cultura, TV Gazeta e Diário de S. Paulo. Edita o Blog do Barbeiro – Barba, Bigode e Cabelo, hospedado pelo R7.

COMENTAR

COMENTAR