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De office boy a líder de audiência na TV, Gugu morre aos 60 anos

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Gugu em registro no começo de carreira como apresentador de TV. (Imagem: reprodução/SBT)

Comunicador não resistiu à lesão cerebral provocada por queda em sua casa em Orlando, nos Estados Unidos

Atualmente contratado da Record TV, Gugu Liberato foi líder de audiência no SBT. Antes do sucesso na televisão, chegou a trabalhar como office boy

Dois dia após ser alvo do “jornalismo” urubuzento, o apresentador de TV Antônio Augusto de Moraes Liberato morreu na noite de sexta-feira, 22, em Orlando, nos Estados Unidos. Gugu, como era conhecido pelos milhões de brasileiros, teve a morte cerebral constatada pelo médico Guilherme Lepski e divulgada pela família do comunicador. Deixa para a história a trajetória de um menino que trabalhou como office boy no início da adolescência e, anos mais tarde, alcançou o posto de campeão de audiência. Na televisão, chegou a ser líder do Ibope, fazendo o SBT superar a TV Globo por inúmeras vezes em plena tarde de domingo.

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Filho dos portugueses Augusto Claudino e Maria do Céu, Gugu começou a trabalhar de forma precoce. Aos 12 anos, já atuava como office boy. Demonstrando paixão pela área de comunicação desde cedo, costumava enviar cartas ao seu ídolo: Silvio Santos. Das correspondências, uma oportunidade. Foi convidado a trabalhar como assistente de produção do então já consagrado animador de auditório. Ficou anos na equipe de SS, mas chegou a deixar a função na TV para se dedicar aos estudos. Conforme informado pelo G1, chegou a cursar dois anos de odontologia. Ligado à comunicação social graduou-se, porém, em jornalismo. Fez parte de turma de formandos de 1983 da Faculdade Cásper Líbero.

O estudo em jornalismo foi pensado para trilhar carreira em outros países. Autor do livro Comunicadores S. A., que conta a história de Gugu e de outros sete apresentadores de TV no mundo dos negócios, Fernando Morgado salienta que a intenção do então jovem Augusto Liberato era trabalhar como correspondente internacional. Para isso, tinha como inspiração um “Mestre do Jornalismo“. “Um dos primeiros sonhos profissionais do Gugu ainda na juventude era ser correspondente internacional. Ele teve esse sonho inspirado no Reali Júnior”, conta Morgado, que também é jornalista e professor universitário, à reportagem do Portal Comunique-se. Relembra, assim, a admiração de Gugu por Realinho, que por mais de 30 anos foi a voz da Jovem Pan em Paris.

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Gugu em ação durante edição do Teleton. (Imagem: reprodução/SBT)

De fã a parceiro de Silvio Santos

A carreira como correspondente internacional não decolou, mas o filho de portugueses que trabalhou como office boy se consolidou como apresentador de TV no Brasil. Ajudou a construir a história do SBT, fazendo parte das estrelas da emissora desde quando ela era chamada de TVS no início da década de 1980. Estreou à frente da ‘Sessão Premiada’ e agitou de vez o público e a audiência televisiva com o ‘Viva a Noite’. Em meio ao sucesso do programa, que ficou no ar por uma década (1982 – 1992), Gugu chamou a atenção da concorrência. Em agosto de 1987, chegou a assinar contrato com a TV Globo. Nem chegou a estrear na telinha como global. No início de 1988, após pedido feito por Silvio Santos diretamente a Roberto Marinho, seguiu no time do Sistema Brasileiro de Televisão.

Esse momento, de quase ir para a Globo e acabar por seguir no SBT, é considerado por Fernando Morgado como o “divisor de águas” na carreira de Gugu como comunicador. O jornalista e escritor cita que, na ocasião, foi assinado o maior contrato com uma personalidade da mídia do país. Além da questão financeira, o status de Gugu como animador também foi elevado. “[Até então] Ele era visto como uma potencial grande estrela”, reforça. “[Foi] O maior contrato que algum profissional de comunicação já tinha assinado na história. E não só garantindo o maior salário e uma série de benefícios, mas também a oportunidade de dividir com o Silvio o comando dos domingos”, prossegue o autor de Comunicadores S.A., que enfatiza de que isso foi “a consagração maior!”.

Trabalhar aos domingos com Silvio Santos foi “a consagração maior” de Gugu, afirma jornalista

Nos domingos, Gugu se fortaleceu como líder de audiência. O outrora jovem office boy apresentou o ‘Domingo Legal’, no SBT, de 1993 a 2009. Como chegou a destacar diversas vezes durante a própria atração, que era transmitida ao vivo, costumava ficar em primeiro lugar no Ibope, levando a melhor na disputa com Faustão, da TV Globo, pela preferência dos telespectadores. Com o programa de auditório, ficou marcado por quadros como ‘Sentindo na Pele’, ‘Táxi do Gugu’, ‘Gugu na Minha Casa’ e ‘Banheira do Gugu’. Ajudou, de certo modo, a impulsionar carreiras artísticas, como a do Padre Marcelo Rossi, do É o Tchan e do grupo Mamonas Assassinas.

Para Fernando Morgado, o acidente aéreo que vitimou fatalmente os cinco componentes do grupo Mamonas Assassinas, ocorrido na noite de 2 de março de 1996, serve como exemplo de que Gugu “antecipou o jornalismo aos domingos”. “Informação no domingo era só a partir das 8 da noite com o ‘Fantástico'”, afirma o jornalista e escritor. “Gugu entrava no ar ao meio-dia e já antecipava informações. De todas as coberturas que ele fez, sem dúvida nenhuma a mais marcante foi a da morte dos Mamonas Assassinas, que ele entrou praticamente sozinho. Ficou desde o final da manhã daquele domingo um programa que conseguiu segurar por cinco horas a cobertura”, explica. “Pode-se até questionar o trabalho que ele fazia, mas era um jornalismo popular”, avalia.

Polêmica: entrevista falsa

Foi na seara do jornalismo popular mencionado por Fernando Morgado que Gugu se envolveu em uma polêmica. No feriado do Dia da Independência de 2003, o ‘Domingo Legal’ exibiu entrevista com o que seriam — conforme divulgados pela atração do SBT — dois integrantes da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). Conduzida por Wagner Maffezoli, a reportagem foi abastecida por ameaças de morte a autoridades e, sobretudo, a três profissionais que na ocasião estavam no comando de noticiários policiais: Marcelo Rezende, José Luiz Datena e Oscar Roberto Godoi. Ficou constatado, porém, que o material transmitido na TV era forjado. Os criminosos apresentados como membros do PCC eram, na verdade, figurantes contratados pela produção do programa. Gugu prestou depoimentos à polícia e até chorou no programa da Hebe. O apresentador, porém, não chegou a ser indicado pela falsa entrevista.

Reinventando-se na Record TV

Apesar da polêmica com a reportagem forjada, Gugu seguiu com o ‘Domingo Legal’ por mais seis anos. Deixou o programa e o SBT em 2009. Seguiu, contudo, como apresentador de TV almejando se tornar líder de audiência. No mesmo ano, foi contratado pela Record TV. Apresentou, inicialmente, o ‘Programa do Gugu’. A atração, também no formato de entretenimento com direito a auditório, ficou no ar até 2013.

“Pode-se até questionar o trabalho que ele fazia, mas era um jornalismo popular”

Após dois anos fora da telinha, voltou a Record TV com o ‘Gugu’ (2015 – 2017). Nessa fase, entrevistou a assassina Suzane von Richthofen diretamente do presídio de Tremembé (SP). Conteúdo que o fez alcançar 17 pontos do Ibope e alcançar o primeiro lugar na Grande São Paulo. Por fim, passou a se dedicar a reality shows, comandando edições do ‘Power Couple Brasil’ e do ‘Canta Comigo’. Feita por temporadas, a atração musical já tem os últimos episódios da edição 2019 gravados pelo agora saudoso office boy que se consagrou como apresentador de TV.

Gugu deixa três filhos e, como constatado pelas redes sociais, colegas na imprensa e milhões de fãs. Ainda não há informações sobre o enterro. Em nota, a família do apresentador informa que ele deixa a vida como doador de órgãos. Abaixo, a íntegra do texto divulgado pela assessoria do comunicador.

NOTA DE FALECIMENTO

Este é um momento que jamais imaginamos viver. Com profunda tristeza, familiares comunicam o falecimento do pai, irmão, filho, amigo, empresário, jornalista e apresentador Antônio Augusto Moraes Liberato (Gugu Liberato), aos 60 anos, em Orlando, Florida, Estados Unidos.

Nosso Gugu sempre viveu de maneira simples e alegre, cercado por seus familiares e extremamente dedicado aos filhos. E assim foi até o final da vida, ocorrida após um acidente caseiro.

Ele sofreu uma queda acidental de uma altura de cerca de quatro metros quando fazia um reparo no ar condicionado instalado no sótão. Foi prontamente socorrido pela equipe de resgate e admitido no Orlando Health Medical Center, onde permaneceu na Unidade de Terapia Intensiva, acompanhado pela equipe médica local.

Na admissão deu entrada em escala de *Glasgow de 3 e os exames iniciais constataram sangramento intracraniano. Em virtude da gravidade neurológica, não foi indicado qualquer procedimento cirúrgico. Durante o período de observação foi constatada a ausência de atividade cerebral. A morte encefálica foi confirmada pelo Prof. Dr. Guilherme Lepski, neurocirurgião brasileiro chamado pela família, que após ver as imagens dos exames em detalhes, confirmou a irreversibilidade do quadro clínico diante de sua mãe Maria do Céu, dos irmãos Amandio Augusto e Aparecida Liberato, e da mãe de seus filhos, Rose Miriam Di Matteo.

SOBRE O AUTOR

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Anderson Scardoelli

Orelhudo, observador e contador de histórias. Não necessariamente nessa ordem. De sua querida Estância Turística de Sapopemba, na zona leste de São Paulo, para o mundo. Graduado em jornalismo pela Uninove e com especialização em jornalismo digital pela ESPM, mas gosta mesmo de dizer que foi formado pelo Comunique-se. Trabalha na empresa há mais de 10 anos, indo de estagiário de pesquisa a editor sênior. No meio do caminho, foi estagiário de redação, trainee, subeditor, editor júnior e editor pleno. Gosta de escrever e de falar sobre (adivinhem?) jornalismo!

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