COMUNICAÇÃO

Que trabalho faz você feliz? – Por Edson de Oliveira

felicidade no trabalho

A primeira coisa que vi antes de o ônibus em que embarquei para ir a um dos últimos bailes de minha vida de solteiro cruzar a rua da Consolação para entrar na avenida Paulista foi uma empena gigante em um edifício com a seguinte pergunta da “Trip”, revista que conheço desde que ela chegou às bancas pela primeira vez, em 1986: “Você é feliz?”.

Depois de passar quase quatro anos carregando e descarregando carrinhos de lenha, caixas de bebidas, lavando banheiros e atendendo clientes em uma padaria, eu deveria estar feliz por trabalhar no Pão de Açúcar, empresa na qual entrei com a ajuda do companheiro que minha mãe arranjou depois de ficar viúva do segundo casamento.

Como não estar feliz trabalhando para uma empresa que me oferecia benefícios que até então eu não conhecia, como conta em banco, talão de cheques, refeitório na empresa, vale-compra, plano de saúde, ônibus fretado pela empresa e domingo de folga para poder curtir o sábado à noite?

Comecei trabalhando como auxiliar de portaria, abrindo e fechando cancelas, pesando veículos de carga e descarga e recebendo e agendando notas fiscais.

Leia mais:

Após fala sobre estupro, Rodrigo Constantino é demitido da Jovem Pan
Você respeita o tempo das pessoas? – Por Lygia Pontes

Sempre chamado a ajudar, principalmente para cobrir férias, na recepção de pessoal, na xérox e no almoxarifado, acabei ficando definitivamente com as chaves deste último setor, onde era responsável pela compra e pelo controle de entrada e saída de materiais de manutenção de escritório e depósito, a esta altura já promovido a auxiliar administrativo e trabalhando em Barueri, cidade para a qual o depósito que ficava em Osasco, onde eu morava, se havia mudado.

Para quem, após ser reprovado em um estágio para ser digitador em um banco, havia feito um curso de datilografia sonhando em trabalhar em um escritório, até que eu havia realizado meu sonho, principalmente depois de, a pedido, ser transferido para o escritório central da empresa, na capital paulista, onde, quando não estava classificando notas fiscais e conhecimentos de transportes, eu estava atendendo no arquivo desses documentos.

Mas, pensando como punk (nunca me esqueço do ano, o mesmo do lançamento da “Trip”, cujo editor era xará de um dos diretores da empresa da Família Diniz, em que meu chefe em Alphaville, que tinha formação militar e não gostava de roqueiro, me deu férias só porque ele não queria ver nenhum subordinado seu de cabelo moicano) e frustrado comigo por estar em um emprego conseguido com a ajuda de uma “persona non grata” (o companheiro de minha mãe havia sido colega de trabalho de meu finado padrasto), depois de seis anos, pedi à empresa que me demitisse, rebeldia esta que, além de me fazer perder a primeira grande oportunidade que a vida me deu de poder comprar algumas das coisas que fazem as pessoas ficar felizes, como um imóvel e um automóvel, me fez passar um, dois, três anos desempregado, só conseguindo achar bicos ou trabalhos temporários.

Até me fazer encontrar, em 1995, o trabalho – revisar texto – que iria me fazer feliz, a mãe de todas as professoras, a vida, ainda me colocou para trabalhar de atendente em uma livraria e em uma loja de conveniência.