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“O rádio está deixando de ser o porta-voz das questões locais”

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(Imagem: reprodução)

De emprego novo no Vale do Paraíba, interior de São Paulo, Jesse Nascimento analisa o momento do meio radiofônico no país. Com bagagem na área, ele espera voltar a ver emissoras de rádio investindo cada vez mais em conteúdo local

No início de abril, o jornalista Jesse Nascimento trocou de emprego. Deixou a Rádio Piratininga para reforçar a equipe de apresentadores e repórteres da Band Vale FM, ambas sediadas em São José dos Campos. Completando duas décadas de experiência na imprensa radiofônica em 2019, ele vai além de falar sobre o momento de sua carreira no Vale do Paraíba, região do estado de São Paulo. Amante do dial, ele analisa a atual fase do meio e sugere rumos a serem seguidos por emissoras espalhadas Brasil afora.

Em contato com a reportagem do Portal Comunique-se, o jornalista vê o foco na produção regional como um ponto a fazer o rádio voltar a se destacar perante o público. “Mais do que nunca, o rádio será um prestador de serviço local”, comenta o profissional. Função que, no momento, tem sido deixada um tanto de lado, lamenta Jesse Nascimento. “O rádio está deixando de ser o porta-voz das questões locais”, diz o comunicador. Ele acredita, contudo, que encontrar equilíbrio entre produção local e material nacional – “que pode ter o seu espaço” – pode resolver essa questão.

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Jesse Nascimento: 20 anos de experiência no rádio (Imagem: arquivo pessoal)

Com 20 anos de vivência em rádio, Jesse Nascimento já acompanhou de perto formatos distintos na questão de conteúdo nacional e regional. De outubro de 2009 o início de 2017, integrou a equipe de esportes do Sistema Globo de Rádio em São Paulo (Rádio Globo e CBN). Esteve no período em que o projeto “Rádio Globo Brasil” foi implementado. Ação estratégica que fez a grade paulista perder espaço para produções vindas do Rio de Janeiro, como o ‘Show do Antônio Carlos’ e ‘Panorama Esportivo’, com Gilson Ricardo. Fora do SGR, onde chegou a ser coordenador de esportes, voltou para o interior paulista meses depois.

Volta ao interior

Natural de Caçapava (SP), o jornalista retornou — dessa vez com status de profissional gabaritado — ao Vale do Paraíba no início de 2017. Primeiramente, atuou na dobradinha 99 FM/Difusora de Taubaté. A parceria durou por pouco mais de um ano, até o momento em que Jesse Nascimento encarou novo desafio. Em 2018, foi contratado pela Rádio Piratininga, de São José dos Campos. Por lá, atuou como coordenador de mídias digitais, repórter e apresentador. Destacou-se e foi convidado as desempenhar as duas últimas funções na Band Vale FM.

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Fachada da sede do Grupo Bandeirantes de Comunicação em São José dos Campos. Empresa mantém a Band Vale FM, onde Jesse Nascimento trabalha como repórter e apresentador (Imagem: arquivo pessoal)

Contratado pela emissora mantida pelo Grupo Bandeirantes de Comunicação no início de abril, Jesse Nascimento revela: está fazendo o que gosta. Além do trabalho no estúdio, como um dos âncoras da grade local, ele tem ido às ruas. Missão: apurar e reportar. Jornalismo investigativo para deixar a “região em destaque”. Na Band Vale FM, analisa que pode ser um “instrumento a fazer a diferença” em São José dos Campos e cidades próximas. E pauta é o que não falta, adianta. Afinal, o Vale do Paraíba conta com sedes de empresas como Embraer e General Motors. Fora isso, conta o jornalista, a “indústria 4.0” tem se aquecido, com o surgimento de diversas startups. Tudo com o “cuidado com a linguagem” na hora de informar, pois o veículo foca nos ouvintes das classes A e B.

Oportunidade para inovar

Com MBA em Gestão da Comunicação em Mídias Digitais pela ESPM, Jesse Nascimento tem uma crítica geral às emissoras de rádio. Para ele, gestores do meio “ainda não se atentaram à integração das mídias”. Como exemplo positivo, cita a Jovem Pan, que vem criando conteúdos exclusivos para a internet, disseminando produções no Facebook e YouTube. Apesar de acreditar que a mídia radiofônica engatinha para fazer bom uso do ambiente online, o jornalista graduado pela Universidade de Mogi das Cruzes vê no imbróglio entre Palmeiras e Grupo Globo oportunidade para o setor.

Curiosidade | Jesse Nascimento também é professor universitário. Ele dá aula no núcleo de pós-graduação da Unicsul, em São Paulo 

“O rádio tem uma grande chance com os jogos do Palmeiras”, diz. A afirmação gira em torno da falta de acordo do time com o maior conglomerado de mídia do país. Até agora, o alviverde não assinou contrato para ter jogos transmitidos na televisão aberta (Globo) e nem pelo sistema pay per view (Premier). Apenas algumas partidas podem ser exibidas pelo TNT, uma vez que há acordo vigente com a Turner no âmbito da TV por assinatura. Dessa forma, determinados embates do Verdão poderão ter amplo alcance por meio das ondas do rádio.

Jesse Nascimento acredita que muitas emissoras vão se destacar — inclusive junto ao mercado publicitário — se acompanharem de perto os jogos sem televisão do Palmeiras. Reclama, contudo, que a primeira oportunidade não foi aproveitada por muitos veículos, até mesmo por marcas com tradição na cobertura esportiva. Isso porque no confronto com CSA apenas Transamérica e Rádio Bandeirantes levaram equipes de São Paulo para Maceió. As demais estações paulistas ficaram sem a transmissão da partida (que não teve sinal algum de TV, impedindo o trabalho de estúdio, o chamado off tube).

Conteúdo e comercial

Para obter sucesso com a cobertura do Verdão e em outros projetos, Jesse Nascimento acredita que o núcleo de conteúdo e o departamento comercial podem se aproximar mais. Desenvolver projetos customizados, que chamem maior atenção de anunciantes. No esporte e nas demais editoriais. Para isso, o online tem de aparecer. “Temos a questão da mídia programática”, fala, a respeito do recurso que customiza a publicidade no ambiente digital, com base no perfil do internauta. No momento, admite que falta organização por parte da imprensa — sobretudo em estações radiofônicas — a criação de banco de dados, com informações demográficas sobre o público consumidor.

“Há a possibilidade de se vender pacotes on e offline. E se o anunciante quiser só o online, por exemplo, compra a cota só nessa parte”, diz o jornalista especializado em mídias digitais. “No futebol, pode-se ter um ou dois parceiros fixos e vender as demais cotas jogo a jogo, de acordo com os times que estiverem envolvidos nas partidas”, sugere, levando em consideração o que já ocorre com patrocínios de camisa de determinados clubes. “Em times do interior, a quem se interesse em aparecer só em determinados confrontos, como a Copa do Brasil”, exemplifica, sabendo que, no momento, o formato não é adotando por nenhuma grande emissora do dial.

Mas o comunicador e amante do rádio tem boas perspectivas. “Podem explorar as redes sociais nos jogos do Palmeiras. Em vez de apenas narrar os lances como no rádio tradicional, vale a conversa com os internautas”, comenta. Pensando em inovação, ele dá dicas. “Vale até pensar em gameficação. Fazer com que o público participe de enquetes e outras ações”, diz Jesse Nascimento, o jornalista que esperava voltar a acompanhar um rádio como porta-voz local, combinado com inovação e integração das mídias.

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SOBRE O AUTOR

Anderson Scardoelli

Anderson Scardoelli

Jornalista, 29 anos. Formado pela Universidade Nove de Julho (Uninove) e pós-graduado em jornalismo digital pela ESPM. Há dez anos no Grupo Comunique-se, onde idealizou os projetos 'Correspondente Universitário' e 'Leitor-Articulista'. Na empresa, já atuou como freelancer (inserção de conteúdo), estagiário de pesquisa, estagiário de redação, trainee de redação, subeditor e editor-júnior. É, desde maio de 2016, o editor responsável pelo Portal Comunique-se e pelo conteúdo do Prêmio Comunique-se.

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